Das páginas para a tela: o desafio das adaptações

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A adaptação literária para o cinema e para a televisão é uma transposição da literatura para a linguagem audiovisual: livros, quadrinhos, mangás transformados em séries, filmes, animes, e demais produtos¹. Em alguns casos esse pode ser um recurso usado para complementar a narrativa. Isso não significa uma transcrição, ou seja, uma releitura da obra, adequando-a para o novo meio, tendo em vista o público, as limitações e o contexto narrativo que o produtor dispõe para trabalhar. Existem fatores, inclusive, que limitam cada veículo midiático e isso pode impedir que a produção siga exatamente igual em todos os meios utilizados; tanto no escrito quanto no audiovisual, sendo essa transposição muitas vezes uma mera referência da obra original.

¹ “Adaptar” significa transpor de um meio para outro. A adaptação é definida como a habilidade de “fazer corresponder ou adequar por mudança ou ajuste” — modificando alguma coisa para criar uma mudança de estrutura, função e forma, que produz uma melhor adequação. (Syd Field – O Manual do Roteiro)

A grande diferença que existe entre as obras originais no material escrito e as obras adaptadas no material filmado se dá porque o leitor precisa elaborar todo o cenário e os demais detalhes em sua mente através de um processo interpretativo íntimo e pessoal. No produto audiovisual o diretor faz o trabalho na tela de uma vez só para todos os espectadores. A interpretação individual e única, diferenciada, ganha uma forma genérica e coletiva quando a narrativa segue para as telas. Embora o texto tenha uma descrição específica, dificilmente todos os leitores imaginam da mesma forma. O diretor está, então, recriando a sua própria versão baseada na obra, assim como temos a versão de cada um de nós e todas elas estão certas.

Quando você adapta um romance, peça de teatro, artigo ou mesmo uma canção para roteiro, você está trocando uma forma pela outra. Está escrevendo um roteiro baseado em outro material (Syd Field)

É importante ressaltar que o produto escrito contém muitos detalhes para transpor para o produto audiovisual de forma que não fique demasiado extenso e cansativo para o expectador. Outros fatores a serem levados em conta são custos de produção e dificuldades de gravações que envolvem cenas e atores,elementos que levam a adaptar o roteiro forçadamente ou de forma previamente planejada sem alterar a essência da narrativa.

Primeira cena de The Walking Dead na versão da HQ e na série/Walkingdeadbr.

Em The Walking Dead, HQ da Image Comics que foi adaptada em série de TV pela AMC, lemos e vemos as imagens quadro a quadro de uma forma prática sendo possível para os criadores mostrarem com mais liberdade qualquer coisa que desejarem em seu roteiro, muitas vezes pulando de um movimento ou cena diretamente para outro. Já na série há cortes narrativos e certas modificações em função, entre outros motivos, da praticidade da gravação, inclusive visto que nós assistimos algo contínuo. ²Segundo o criador da franquia, Robert Kirkman, certos elementos da HQ foram deixados de fora da série de televisão devido à dificuldade de gravação por levar um tempo muito grande para executar uma cena ainda que curta. Essas modificações são feitas sem que a essência da história se altere.

² “(…) mas nós só o mostramos já em pé no caminhão. E se você está lendo as HQs, nota ele em cima do caminhão e pronto”.

Game of Thrones é uma adaptação produzida e elaborada com qualidade cinematográfica com um alto investimento em detalhes cenográficos para trazer a riqueza dos detalhes descritos nos livros. Em sua primeira temporada, a transposição dos livros para a tela foi fiel e agradou massivamente os fãs. A temporada inicial conseguiu conciliar as necessidades narrativas e driblar as dificuldades da produção entregando uma série que o fã do livro reconhecesse e que o novo espectador assimilasse. Embora as duas produções, livro e audiovisual, tenham adquirido rumos divergentes no decorrer do tempo, a essência da narrativa se mantém.

Gravação de Game of Thrones/mirror.co.uk

Mas quem nunca leu um livro, esperou ansioso pelo filme e depois soltou o clássico “gostei mais do livro”? Essas modificações não tornam uma produção melhor ou pior que outra se ambas forem tomadas como duas narrativas independentes. Esse é o ponto mais importante: olhar para as produções como obras independentes, embora o olhar do fã espere ver muitos detalhes de um veículo no outro. Como entusiasta de um universo, é normal criar expectativas e não é isso o que define a qualidade de uma adaptação.

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Aline Doria
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Natural do interior de São Paulo, aos 29 anos é radialista pela Unesp, colunista da revista, apaixonada pela cultura geek, escritora, leitora e seriadora compulsiva.

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