Black Mirror e a tecnologia que evidencia o pior do ser humano

Com suas imagens distópicas de um futuro não tão distante, Black Mirror faz uma leitura dentro do ser humano. 2013/Pôster promocional/NETFLIX

Em 2016, no lançamento da terceira temporada de Black Mirror, a internet foi invadida por imagens impactantes de natureza cômica que relacionavam a vida real com a série britânica. Após a compra pela Netflix, serviço de assinatura de filmes e séries de TV, a antologia de ficção cientifica ganhou reconhecimento internacional. A série é uma criação de Charlie Brooker e conta com episódios independentes que abordam temas obscuros como ódio, vingança, punição, humilhação pública e padrões que examinam a sociedade moderna com avanços tecnológicos em possíveis futuros para a humanidade.

Repetindo a fórmula de séries como The Twilight Zone e Tales of the Unexpected, cada episódio narra uma situação distante, em mundos futuristas divergentes, com personagens distintos.

“Cada episódio tem um elenco diferente, um cenário diferente, até mesmo uma realidade diferente, mas todos se tratam da forma que vivemos agora — e da forma que podemos estar vivendo daqui a 10 minutos se formos desastrados”, Charlie Brooker.

As histórias possuem ritmo próprio com ênfase nas circunstâncias dos personagens que funcionam perfeitamente separados, mas juntos, como parte da série, imprimem, através de suas diferenças, o ar reflexivo que Black Mirror se propõe criar. Com plot twists chocantes, críticas sociais pertinentes e realidades diversas, as primeiras temporadas da série foram aclamadas pela crítica especialista. Sameer Rahim, do The Telegraph, disse que “a série tocou em ideias importantes — a falsa maneira que nós, às vezes, nos apresentamos online, e nosso crescente vício em vidas virtuais — mas também foi uma exploração tocante do sofrimento”.

A inquietação contida na apreciação dos episódios pelos telespectadores deve-se, principalmente, a familiaridade das realidades a nossa sociedade atual. Apesar de temas inicialmente absurdos, aos poucos somos questionados sobre a força e influência da tecnologia em nossos dias. Black Mirror, traduzido literalmente para o português como “espelho negro”, é uma referência às telas pretas dos celulares, que quando apagadas refletem as imagens de seu proprietário, mas ligadas mostram um mundo completamente único e particular.

“Se tecnologia é uma droga — e parece ser uma droga — então quais são, precisamente, os efeitos colaterais? Esta área — entre prazer e desconforto — é onde Black Mirror, minha nova série dramática, se passa. O “espelho negro” da abertura é o espelho que você encontrará em cada parede, em cada mesa, na palma de cada mão: a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor, de um smartphone”.

Uma reflexão sobre como a tecnologia alteraria o estilo de vida e a cultura na qual vivemos é um dos pontos frequentes, mas silenciosos, durante as temporadas. A tecnologia está em constante evolução. A cada ano essa evolução é ainda mais frequente. Se olharmos para a maneira como a sociedade lida com essa evolução hoje, o que podemos esperar do futuro?

Cada episódio é um mergulho aprofundado sobre um estudo da nossa sociedade com o que há de pior e de melhor do ser humano. Reflexões que transcendem a série e criam no consciente dos fãs questionamentos reais sobre a perversidade humana e a sua capacidade de evolução e adaptação.

Protegidos pela sensação de anonimato, milhares de pessoas utilizam as redes sociais para humilhar, atacar e ferir ofensivamente alguém. Nessas mesmas redes sociais encontramos todos os dias diversas campanhas sociais em prol de boas causas e instituições. A internet realça o melhor e o pior do ser humano. Black Mirror tenta, através da narrativa, criar situações onde essa dualidade se realce. A tecnologia apenas aflora algo que está intrínseco no ser humano.

Em “Hated In The Nation”, último episódio da terceira temporada da série, uma dupla de detetives tenta desvendar a ligação entre duas mortes e mensagens de ódio que as vítimas sofreram nas redes sociais na semana dos assassinatos. O episódio retrata o discurso de ódio inconsequente na internet com camadas sutis sobre problemas governamentais através de terror tecnológico.

Muitas pessoas acreditam que podem fazer do mundo um lugar melhor, que possuem a cura para as mazelas do mundo através das suas opiniões. No entanto, os líderes das maiores atrocidades cometidas na história também pensavam ter razão. No fundo, não é assim que quase todo mundo pensa? A questão é que, até bem pouco tempo atrás, o número de pessoas envolvidas nesses terrores psicológicos era pequeno, hoje em dia, com a facilidade de difusão de ideias degeneradas pela internet, chega a ser aterrorizante. Nós não costumamos pensar em nós mesmos sendo disseminadores dessas ideias. Parcialmente, porque somos idiotas e não costumamos nos questionar. Se deve haver qualquer tipo de sorte de mensagem, esta deve conter palavras de simpatia, empatia. Mas, nós não estamos oferecendo soluções, na maior parte das vezes.Charlie Brooker

Com o reflexo do uso das redes sociais é difícil perceber quantas de nossas ideias são construídas por pensamentos próprios e quantas são apenas copias cegas de outras opiniões difundidas pela internet. Dominados pela sensação de pertencer a um grupo ficamos cegos ao tentar acompanhar padrões estabelecidos, padrões de autoestima e felicidade que são apenas fragmentos distorcidos da realidade, criando uma nova geração, uma geração narcisista que busca sua aprovação através das redes sociais. Nossa autoestima está diretamente relacionada ao número de likes que recebemos em nossos posts, mostrando quão relevantes somos para o grupo social que estamos inseridos. Podemos ter um dia repleto de diversão na companhia da família e amigos, mas as lembranças perdem a significação se não forem capturadas, publicadas e aprovadas.

Essa nova dinâmica onde vivemos duas vidas diferentes, levou-nos a lidar com vidas opostas; nossas realidades com rotinas entediantes e momentos felizes, dias bons e dias ruins e as vidas controláveis — que podemos editar pelos filtros —, perfeitas e admiráveis.

“Nosedive”, primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, é, talvez, a representação mais perfeita dessa dinâmica. Nele as pessoas são apenas números: quanto mais “estrelas” elas ganham, maior o status na sociedade. Através de implantes de retina só basta um olhar para saber qual é a classificação da pessoa a sua frente. Essa classificação se baseia nas interações da vida real e nas fotos publicadas pelas pessoas. Quanto mais bonita for a foto, quanto maior o sorriso, a imagem mais interessante, mais a sua classificação melhora. Alguém com classificação acima de 4.5 pode entrar em clubes exclusivos, comprar casas melhores, ter carros tecnológicos, mas se houver uma queda em sua classificação todas as regalias são eliminadas e você é tratado como escória, tendo dificuldade em convencer outras pessoas a serem suas amigas.

Dependemos de nossas vidas online, nossa aparência, nosso bem-estar, nossa significância, porém é difícil manter a mesma imagem nos dois mundos. Muitas pessoas, em uma busca implacável pelo reconhecimento e pela validação, acabam perdendo o senso de si mesmo. A linha entre manter as aparências na vida online e ser você mesmo na vida real está lentamente sendo apagada. “Nosedive” nos faz lembrar aonde essas repercussões podem chegar.

Uma seleção de histórias bizarras, inquietantes e, espero, divertidas, sobre ‘e se’”, define Brooker. “A tecnologia nunca é usada como vilã nas nossas histórias, é usada no lugar de mágica, basicamente. É sobre os dilemas humanos”.

Black Mirror retrata o poder que o homem detém sobre tecnologia e sua capacidade de levar as emoções da humanidade através de um percurso de altos e baixos. Como disse John Goodenough, “A tecnologia é moralmente neutra. O que interessa é o que fazemos com ela”. A tecnologia não é boa ou má. O ser humano, no entanto, carrega dentro de si todas as variações possíveis de sentimentos, que podem ou não ser positivos.

Para Black Mirror as perguntas estão ficando mais estreitas, mas o alvo permanece o mesmo: toda a raça humana e o mundo que estamos construindo para nós mesmos. A sensação de desconforto em assistir a qualquer episódio de Black Mirror não vem do medo de que possamos um dia viver em um dos mundos distópicos que ele cria, é o que já fazemos no nosso mundo. É ver como uma série de ficção-cientifica pode retratar tão bem o futuro próximo de nossa sociedade. Os avanços tecnológicos são bônus para os possíveis futuros do mundo de Black Mirror. Eles servem para evidenciar o que há de mais intenso no ser humano: sua capacidade para o mal e para o bem.

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Vanessa Fontoura
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Natural de Vitoria do Espírito Santo, 22 anos, formada em magistério, estudante, colunista e escritora, é apaixonada pelos mistérios da vida e as peculiaridades da raça humana.

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