Vale a pena ver? | Rick e Morty

2013/ADULTSWIM

Rick e Morty é um desenho norte-americano voltado ao público adulto focado nos gêneros comédia e ficção científica. Foi criada por Justin Roiland e Dan Harmon para o Adult Swin, quadro noturno exibido no canal FOX. A série estreou no final de 2013 e conta a história de um cientista chamado Rick Sanchez e suas viagens por dimensões bizarras na companhia de seu neto Morty — uma direta referência à trilogia “De Volta para o Futuro”, cuja paródia, criada pelo próprio Roiland, originou a série.

Rick é retratado como um gênio alcoólatra e egocêntrico enquanto Morty é um adolescente de 14 anos extremamente inseguro. Devido às situações inusitadas às quais é exposto por conta da aparente apatia de seu avô e das dificuldades dentro do núcleo familiar desestruturado, Morty acumula uma intensa angústia que é refletida em sua insegurança e na sua personalidade facilmente influenciável.

Com uma base aparentemente pobre no que diz respeito à originalidade, Rick e Morty surpreendeu o público e hoje é considerado por muitos como a melhor animação de todos os tempos, ocupando uma das primeiras dez posições no ranking de 250 do imdb. Contando com um clima satírico que vai se amargando mais a cada episódio, somos sutilmente imersos no universo da série e apresentados à questões científicas e filosóficas presentes em todos os episódios. Mesmo em diálogos mais comuns, nos deparamos com reflexões existencialistas e niilistas, evidentes também — e principalmente — no comportamento de Rick.

Podemos encontrar um exemplo claro disso em “Rixty Minutes”, onde Morty, numa conversa com sua irmã Summer, profere a seguinte sentença:

[…] Ninguém existe por um propósito, ninguém pertence a lugar nenhum e todos vão morrer, agora vamos assistir TV?

Além dessas e de outras trocas de diálogos que tratam bruscamente o pessimismo da realidade, a série também mostra através de situações inusitadas a veracidade desses argumentos. Utilizando elementos que vão desde realidades paralelas até problemas conjugais, Rick e Morty consegue mostrar com perfeição a nossa insignificância no universo e a descartabilidade da nossa vida; isso tudo com uma leveza inesperadamente entrecortada pelo retrato de um dos nossos medos mais antigos e desesperadores: a passagem inútil e vaga do ser humano pelo universo. Porém, a perfeição mencionada anteriormente se encontra no poder que a animação possui de conduzir esse tema com comicidade, obrigando-nos a rir da condição de nossa finitude e nos fazendo perceber que não há nada de grandioso nessa questão, que apenas é o que é: não existimos por um propósito, não pertencemos a lugar nenhum, todos vamos morrer e não há nada o que se fazer quanto a isso.

Esse é um dos reais intuitos da série, mostrar que, exatamente porque a vida naturalmente não tem nenhum outro sentido além de ser, não devemos nos levar tão a sério nem nos iludir com tantas problematizações da vida.

Logo, é por trás de tudo isso que se nota uma intensa exploração do existencialismo e do niilismo encontrada na filosofia de Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. Contudo, ainda que a série possua diversas referências à filosofia e à termos científicos, não é necessário que o público possua um alto grau de conhecimento nessas áreas para aproveitar e compreender a animação. Um cientista pode apreciar o humor e as referências da mesma forma que um leigo.

O principal ponto da série é a possibilidade de atender a um público diverso, apostando em piadas baseadas em teorias reais, mas que também podem ser compreendidas por quem não possui um profundo conhecimento no assunto. Portanto, a série está longe de ser elitista, mas sim próxima dos debates e questionamentos cotidianos que nos rodeiam e que porventura ignoramos.

Rick, um dos protagonistas da animação, é relatado como alguém imensamente poderoso e inteligente, tendo a capacidade de interferir e alterar outras realidades quando achar conveniente. Pouco a pouco vamos reconhecendo seu poder e a riqueza da sua personalidade, apegando-nos também às suas (por vezes falhas) tentativas de não demonstrar apego a nada nem a ninguém. Todavia, o público ocasionalmente possui a chance de presenciar as migalhas lançadas no decorrer da série pelos roteiristas, provando que Rick possui um ideal pelo qual batalha e que tem sentimentos de todos os tipos, sejam eles agonizantes ou agradáveis, como tristeza e amor. Sua frase de efeito, Wabalubadubdub, de acordo com um dos personagens presente até a segunda temporada da animação, o Homem-Pássaro, significa “Estou sofrendo, por favor, me ajudem”. Portanto, embora Rick mostre que não vê mais importância na vida e que tem consciência de que sua existência não significa nada, esta é uma das outras dezenas de provas de que Rick esconde atrás do seu escudo apático uma certa fragilidade emocional, fato que se torna ainda mais forte no final da segunda temporada.

Ainda que Rick seja um personagem muito aclamado pelo público devido ao seu egocentrismo agridoce, Morty é outro personagem que, embora seja tratado como um palerma no começo da série, aceitando todas as decisões imorais que o avô toma, vai demarcando a sua personalidade contraditória nos episódios que se passam. Por vezes comete as atrocidades que repudia, como é demonstrado no episódio “Look Who’s Purging Now”, da segunda temporada, onde Morty participa de um massacre num planeta em que assassinatos são permitidos por uma noite — episódio baseado no filme de horror de 2013 chamado “The Purge”. Ou seja, Morty, mesmo que inconscientemente, repete as mesmas atitudes de Rick e, às vezes, as ultrapassa, seja por cunho sexual ou por um ideal.

Dessa forma, conhecendo todos os trâmites da série e acompanhando os episódios, a principal sensação que temos a todo instante é a de despretensiosidade: bandeiras não são erguidas, nada é endeusado, celebridades não são aclamadas e, assim, ficamos diante de um vazio existencial sutil e rasamente desesperador. Somos livres para concordar com algo ou discordar, ou ambos ou, talvez, nenhum.


FICHA

Título: Rick e Morty

Gênero: Comédia, Ficção científica

Duração: 3 temporadas

Ano: 2013

Sinopse: Uma série animada que acompanha as aventuras e os descobrimentos de um super cientista e seu neto não muito brilhante.

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Fernanda Scheffler
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Diretora administrativa da revista e do site Entrelinhas, carioca, 20 anos, técnica administrativa, estudante de psicologia, professora e escritora apaixonada.

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