Freddy Kruegger: o medo, a realidade e o sonho

O homem deformado com garras de aço ataca um grupo de adolescentes em seus pesadelos e, para escapar, suas vítimas precisam acordar... 1984/Cena de "A Hora do Pesadelo"

Já dizia Lovecraft, a emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.

O medo do desconhecido é natural, intrínseco ao ser humano e o acompanha desde os primórdios da sociedade. O terror na ficção é a externalização dos nossos medos de forma a exorcizá-los. Assim como uma criança tem medo do escuro aquele lugar tenebroso e intocável onde ficam todos os temores sem nome que não conhecemos e não ousamos nos aproximar , o homem teme a ideia do que não se pode vislumbrar e do que está além de sua compreensão. O autor de terror usa a produção de sua ficção como um recurso para externar esses monstros que habitam sua mente para que não o persigam em seu interior.

A franquia A Nightmare on Elm Street (A Hora do Pesadelo) foi lançada originalmente em 1984 com roteiro e direção de Wes Craven e traz esse paralelo entre nossos temores e a sanidade, entre realidade e ficção, realidade e sonho. No filme, um grupo de adolescentes é atormentado por pesadelos terríveis em que um homem misterioso os assombra; possui o rosto deformado, luvas com garras de aço e uma blusa verde e vermelha. Ele caça os jovens um a um durante o sono e para escaparem é preciso simplesmente acordar. Até que é revelado a eles que se trata de Freddy Kruegger, um criminoso que há tempos molestou crianças na rua Elm e foi queimado vivo pelos vizinhos. Agora ele voltou para se vingar através do sonho.

O enredo principal foi inspirado em notícias de jornal publicadas no LA Time¹ sobre curiosos acontecimentos envolvendo um grupo de refugiados Cambojanos depois de se abrigarem nos Estados Unidos. As crianças desse grupo tinham pesadelos horríveis e chegaram a se recusar a dormir. Sob recomendação médica seus pais os tranquilizaram e encorajaram a pegar no sono. Porém, cada uma delas morre durante o sono após um pesadelo. Na ocasião, o caso foi conhecido como Síndrome da Morte Súbita Asiática.  Além disso, a alegoria de Freddy Kruegger está intimamente relacionada com Wes Craven. Certa vez, em sua infância, ele viu através da janela de casa um homem velho andando. A pessoa o encarou e foi embora em seguida. Naquela época isso o marcou o suficiente para criar o personagem icônico de A Hora do Pesadelo que conhecemos hoje².

¹ Segundo o documentário Going to Pieces: The Rise and Fall of the Slasher Film 1978-1986.

² De acordo com informações do DVD lançado em 2001.

Wes Craven, criador da icônica franquia “A Hora do Pesadelo” e “Pânico”.

Querendo ou não, Wes usou esse momento marcante de sua infância para criar o Freddy e externar seu medo de menino. Ele é a própria metáfora de Lovecraft, em que o autor coloca em sua obra seus monstros interiores e seus medos mais antigos. Freddy Kruegger é o obscuro e o desconhecido em um território ainda mais desconhecido: o sonho. Isso é o que torna o cenário narrativo aterrorizante; o roteiro brinca com esse limiar entre realidade e sonho e ali quem manipula a elasticidade desse limiar é o Freddy.

O que poderia ser mais assustador do que a ideia de não poder dormir nunca mais ou ainda vislumbrar a sensação de não ser capaz de distinguir se está vivendo um sonho (pesadelo) ou realidade? Embora seja uma produção já ultrapassada em tempo, tem muitos fãs ainda nos dias de hoje e sua narrativa não envelhece, pois  ainda mexe com o imaginário popular ao brincar com os limites da realidade.

Apesar de algumas pessoas não gostarem do gênero, o filme de terror produz no fã o mesmo efeito que no autor: externaliza e exorciza seus medos num processo de catarse representado na metáfora da narrativa. A sensação de temer algo amparado pela segurança da ficção proporciona um momento único de experimentar os temores de nossa mente e depois voltar ao mundo real, embora a ficção do terror tenha a liberdade de nunca se explicar completamente e isso basta porque aquela catarse acabou e voltamos para a realidade.

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Aline Doria
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Natural do interior de São Paulo, aos 29 anos é radialista pela Unesp, colunista da revista, apaixonada pela cultura geek, escritora, leitora e seriadora compulsiva.

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