Obscurus: quando a ficção extrapola a realidade

2017/Pôster de divulgação

“Animais Fantásticos e Onde Habitam” chegou ao mundo trouxa em novembro de 2016. O filme expandiu consideravelmente a narrativa de Harry Potter de forma rica e complementar, e conta a história de Newt Scamander, um magizoólogo que pesquisa animais mágicos pelo mundo e os protege.

Scamander segue até Nova York em uma missão pessoal com suas criaturas mágicas. Logo que chega na cidade alguns animais escapam de sua mala especialmente dimensionada para abrigá-los, obrigando-o a sair em uma jornada em busca de recuperá-los junto do não-maj (não bruxo) Jacob e a ex-auror Tina.

Jacob é o responsável por soltar os animais acidentalmente; isso ocasiona a quebra do Estatuto de Sigilo e Tina vê nesse acidente uma oportunidade de reaver seu cargo. No entanto, eles acabam por sair em busca das criaturas mágicas antes que causem maiores estragos pela cidade e a eles próprios. Em meio a essa confusão a cidade vive um clima tenso de ataques a bruxos e a não-majs, fazendo com que o diretor de segurança mágica passe a desconfiar de Tina e Scamander. Eles precisam correr contra o tempo para resgatar os animais antes que algo pior aconteça.

Ao mesmo tempo existe uma força sombria pairando Nova York além de toda a tensão social causada pela repressão à comunidade bruxa, que vive escondida e coexiste com subgrupos que reprimem a existência da magia nas pessoas.  

Assim conhecemos um pouco do contexto em que “Animais Fantásticos e Onde Habitam” foi desenvolvido.

Somos apresentados ao conceito de “obscuro”, uma força condensada de uma magia instável que ataca inesperadamente e surge como uma explosão. Origina-se quando bruxos que reprimiram a magia conscientemente tentando suprimi-la e perdem o controle ao atingir certa idade — geralmente crianças por volta de sete a dez anos.

Nas palavras da autora: “Um Obscurus é desenvolvido em condições muito específicas: trauma associado com o uso de magia, ódio internalizado da própria magia e uma tentativa consciente de suprimi-la”.

Além de ser um sofrimento enorme e incontestável para o pequeno bruxo nascido num lar de não-maj ou apenas criado nesse lar que vive essa repressão, dentro do contexto narrativo é de um perigo maior ainda guardar todo esse potencial mágico dentro de si e sufocá-lo. Cedo ou tarde a magia natural vai se transformar em um grande mal sem controle para a pessoa e a todos a sua volta.

Se a gente extrapolar a ficção e trazer uma analogia metafórica — mas não tão distante assim dos paralelos da realidade — para o cotidiano não tão fictício da nossa sociedade, temos algo muito parecido com a repressão bruxa pelos não-maj. Se a vida imita a arte, a arte imita a vida e mesmo numa referência indireta essa repressão à sociedade bruxa se assemelha a repressão sofrida por muitas comunidades no nosso mundo real, como a LGBT+, por exemplo. Esse limiar com a caça às bruxas de “Animais Fantásticos” fica claro quando alguém precisa reprimir uma natureza porque não é aceito daquela forma. Mais do que isso, quando essa repressão cresce e consome até que esse alguém exploda como um obscuro ao sufocar os sentimentos, no caso, no lugar da magia. Porque tudo aquilo que se reprime para suprimir também te mata aos poucos.

Pense se você já olhou para a sua vida e se perguntou se havia algo fora do lugar; em algum momento você teve que deixar de ser quem você era porque a sociedade dizia que era errado? Você já se reprimiu porque era contra as regras e se tornou outra coisa?

Só pense, não minta. Mas como a gente deixa de ser quem é sem virar uma grande massa de sentimentos instáveis? Se no fundo não podemos nos tornar outra coisa, só sufocar o que há de verdade em nós.

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Aline Doria
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Natural do interior de São Paulo, aos 29 anos é radialista pela Unesp, colunista da revista, apaixonada pela cultura geek, escritora, leitora e seriadora compulsiva.

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