A construção de significados

2011/INEXISTENTMEN

Nós assimilamos o mundo à nossa volta imageticamente, criamos signos e atribuímos significados. Construímos, desconstruímos e ressignificamos. Um símbolo tem o sentido que damos a ele e a história nos ensinou que temos o poder de ressignificar, criando até mesmo verdadeiros estigmas, tal como a suástica que atualmente tem seu significado associado ao nazismo. Acredita-se que esse símbolo exista há mais de sete mil anos e que era usado por civilizações antigas da América do Norte, América Central e Eurásia com o significado de “Boa Sorte”.

Um símbolo pode ser completamente distorcido e seu significado original talvez nunca poderá ser restaurado. De “Boa Sorte” e “Felicidade” a cruz suástica carrega hoje um sentido negativo da memória e legado do III Reich.

 

 

 

 

 

 

Uma reconstrução de significado também aconteceu com o pentagrama, a estrela de cinco pontas que aparece há muito tempo em diversas culturas e crenças. Desde os primórdios seu significado trazia uma relação com o divino e com a ideia de proteção, a perfeição e o verdadeiro. Pitágoras e seus seguidores estudaram sua geometria e consideraram um emblema da perfeição matematicamente, essa forma geométrica ficou conhecida então como A Proporção Divina e chegou a ser usada em projetos de templos na época. Para os primeiros cristãos o pentagrama representava as cinco chagas de Cristo e trazia um misticismo religioso além de ser usado para comemorar a visita dos Reis Magos ao menino Jesus e como um símbolo de proteção contra demônios. Aí é que está o poder de manipulação de significados: quando a igreja começou a perder território e poder, ela ressignificou o pentagrama de um símbolo de proteção e segurança à própria representação do mal durante todo o período da Inquisição no qual se deu a Idade das Trevas perseguindo Templários e antigas religiões. Mais tarde o significado dúbio e conveniente cristão que outrora fora protetor permaneceu, mas todas as outras culturas e crenças seguiram acreditando em seu talismã de proteção e perfeição, especialmente depois que a Wicca se difundiu mais.

A ficção constrói e reconstrói conceitos, ou ainda se apropria daqueles que já existem. A série Supernatural explora metáforas e simbologias bíblicas para contar sua história e, em meio a muitos símbolos que aparecem, trouxe o pentagrama para seu contexto narrativo como um símbolo de proteção. Muitas pessoas associam como algo demoníaco ou satânico sem saber que tantas culturas já usavam como um talismã protetor. A própria série construiu um conceito em cima do ícone que gera uma identificação entre os fãs, identificação essa já carregada com todas as mensagens da série que atualmente estão agregadas a imagem. E há inclusive um reconhecimento pelas pessoas que não fazem parte do fandom.

O símbolo das relíquias da morte de Harry Potter aparece descrito pela primeira vez para o leitor exatamente assim: “Um símbolo estranho em forma de um olho triangular, brilhava em uma corrente de ouro pendurada ao seu pescoço” (p.113). Na cena, Harry e Rony veem o colar de Xenofílio Lovegood – pai de Luna – e eles ainda não têm a menor ideia, assim como nós, do que significa. Seu signo e significado são construídos ao longo da narrativa.

Atualmente, qualquer fã – e muito provavelmente uma pessoa sem tanta familiaridade com a saga também – sabe exatamente o que significam um triângulo junto com um círculo e uma linha.

Mais do que apenas objetos simbólicos a representação remete a todos os significados que a narrativa construiu; desde a simbologia de cada irmão dentro do conto até toda a representação dentro da busca do próprio Harry pelas relíquias vs. Horcrux para derrotar Voldemort. Aquele símbolo estranho apresentado pela primeira vez pendurado em um colar no pescoço de Xenofílio se moldou para os leitores e ganhou um sentido ao longo das mais de 500 páginas do livro.

Essa construção de conceitos e simbologias dentro de universos narrativos está muito presente em filmes, séries, livros, quadrinhos e especialmente nas narrativas de heróis que agregam valores e mensagens. Depois de construir um sentido para essa imagem podemos associar ela aos personagens, contextos e fazer todas as referências necessárias quando ela for retirada de seu universo original.

O que seria de Steve Rogers se não pudéssemos assimilar uma referência?

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Aline Doria
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Natural do interior de São Paulo, aos 29 anos é radialista pela Unesp, colunista da revista, apaixonada pela cultura geek, escritora, leitora e seriadora compulsiva.

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