A outra face de um sorriso: o suicídio de Chester Bennington

Um dos principais tabus ainda nos dias de hoje é o suicídio. Na maioria das vezes visto como uma saída covarde para os problemas, ele é, na verdade, o fim da linha de alguém que já pediu ajuda de muitas formas e não foi escutado. Quem busca o suicídio como alternativa não quer colocar fim a própria vida, mas sim à dor que sente. É problemático tratar algo delicado assim de forma tão banalizada como estamos costuma-se fazer: quando os gatilhos das tentativas de fugir de dores íntimas de milhares de pessoas se tornam notícias sensacionalistas ou piadas em rodas de amigos – ou pior, em debates virtuais no quais todos somos juízes com sentenças arbitrárias condenando o próximo.

Uma das maiores causas do suicídio é a depressão, uma doença psicológica que causa um distúrbio mental afetivo extremamente democrático. Ou seja, não distingue classe social e nem seleciona religião ou etnia A pessoa se torna refém de si mesma, encontrando-se num buraco,isolada, trazendo como consequência uma apatia e isolamento social; não o contrário como muitas vezes se pensa. É comum encontrar na sociedade um certo sentimento de descaso em relação ao tema, porém, é preciso empatia para compreender que não há como saber as agruras  que se passam na mente de cada um, muitas vezes extremamente delicadas.

Recentemente (20-07-2017) Chester Bennington, ex-vocalista da banda Linkin Park, foi encontrado morto em sua casa quase dois meses depois de prestar homenagem ao amigo Chris Cornell, líder do Soundgarden, que também tirou a própria vida (26-05). Ambos foram encontrados enforcados. Chester cometeu o ato no dia que seria aniversário de Chris – amigos próximos acreditam que a morte do amigo tenha sido uma das principais motivações. Na ocasião, o artista passava por um ótimo momento de sua carreira, prestes a entrar em uma turnê com a banda, contudo, não é possível assumir que sua boa vivência em relação a família, amigos e a fama reflita o estado de sua mente – que já lidava com dificuldades pessoais relativas ao seu histórico de combate ao alcoolismo.

Chester Bennington em show da banda

Bennington teve uma infância difícil e encontrou  refúgio para sua história problemática na música.  Enfrentava problemas com o vício lutando constantemente e lidando com suas dificuldades. Mesmo com um histórico claramente delicado, as pessoas acabaram por abstrair os sinais discretos sobre seu estado psicológico por atravessar um período próspero na carreira – inclusive os contatos mais próximos o fizeram.

Há evidências espalhadas de pedidos de ajuda implícitos e silenciosos. É preciso olhar ao redor, com cuidado e empatia, para que se enxergue as necessidades dos que estão em volta, como é possível ver no seguinte trecho retirado do artigo da Rolling Stone:

Bennington falou sobre seus problemas em uma entrevista em fevereiro à Music Choice. “Tenho uma dificuldade com a vida”, disse enquanto descrevia o sentido por trás do hit “Heavy”. “Mesmo quando ela está boa, eu me sinto desconfortável o tempo inteiro… o primeiro verso, ‘não gosto da minha mente neste momento’ – tipo, sou eu 24 horas por dia. Se fico preso aqui, simplesmente acho a vida muito difícil. E não precisa ser.” 

Chester Bennington sucumbiumas há outros casos em que se pode ver  grandes exemplos de superação. Ocasionalmente há casos especiais no meio do entretenimento em que é possível, com sua imagem de destaque, ajudar ainda mais outras pessoas.

Imagem de divulgação da primeira edição da campanha Always Keep Fighting

Durante as gravações da terceira temporada de Supernatural, o ator Jared Padalecki enfrentou uma crise de depressão em um momento no qual sua vida profissional passava por uma ótima fase: ele era jovem, a série ia bem e conquistava muitos fãs, mas isso não foi suficiente para suplantar suas dificuldades interiores. Embora ele tenha buscado ajuda e superado a crise com o apoio de amigos e familiares, a batalha é diária. Depois de levar seu problema pessoal para o público, Jared lançou uma campanha em 2015 com o slogan Always Keep Fighting  (”Continue sempre lutando”, em tradução livre) vendendo camisetas com o objetivo de arrecadar fundos para as instituições de caridade To Write Love On Her Arms, The Wounded Warrior Project e A.I.R. Attitudes In Reverse, que ajudam pessoas com depressão, vício ou pensamentos suicidas.

A carreira de sucesso de Chester ou a “vida perfeita” de Jared com uma série conquistando fãs e ganhando o mundo, não são em nenhum dos casos garantia de uma vida plena e feliz. As lutas internas e cotidianas requerem respeito e empatia.

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Aline Doria
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Natural do interior de São Paulo, aos 29 anos é radialista pela Unesp, colunista da revista, apaixonada pela cultura geek, escritora, leitora e seriadora compulsiva.

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