A diversidade na mídia

"O LGBT Pride é sobre mudanças sociais, também acreditamos que nossa comunidade precisa de um espaço para comemorar quem somos, o que nós conquistamos e esse é o porquê de termos criados a Pride Island" disse o organizador Jose Ramos numa entevista à NewNowNext. 2017/NYCPRIDE

No mundo há uma diversidade enorme de gente e é necessário que essa mesma diversidade seja representada na ficção. Se a vida imita a arte, a arte não imita a vida?

É necessário celebrar a diversidade e a representatividade como elementos do audiovisual num espaço cada vez mais presente, ainda que longe do ideal. Se nós buscamos uma imersão num universo ficcional para vivenciar aquela narrativa junto com os personagens, ampliar nossa experiência como expectador e sentir parte daquele momento mais do que só entretenimento; então nós buscamos uma representatividade nesse universo narrativo. Quando vemos um filme, uma série, uma novela, lemos um livro e nos identificamos com um personagem nós nos sentimos parte daquilo como se também pudéssemos ser um herói ou só ser uma pessoa comum que tem a sua história contada. Mas que ao mesmo tempo está ali, reconhecido naquele universo.

¹ A escolha do mês de junho para celebrar a diversidade e comemorar tanto a luta contra a homofobia quanto a luta por direitos faz referência a revolta de Stonewall (NY) em 28 de junho de 1969, quando um grupo de gays enfrentou a violência policial sofrida frenquentemente pelos homossexuais que frequentavam o local.

No mundo há uma diversidade enorme de gente e é necessário que essa mesma diversidade seja representada na ficção. Se a vida imita a arte, a arte não imita a vida? Obviamente a ficção não é como a realidade, mas quanto mais seus personagens forem verossímeis, mais fácil será acreditar nesse mundo criado. Nós precisamos ser convencidos de que aquilo poderia ser real para acreditar no que estamos assistindo. O que seria mais natural do que algo tão natural quanto as pessoas a nossa volta? Se não vivemos num grande comercial de margarina, nossos filmes não devem ser um de duas horas. Não um, dois, três ou uma cota de personagens porque isso seria tão absurdo quanto quantificar quantas pessoas homossexuais, negras, mulheres ou qualquer outra distinção que se faça, poderia existir no mundo — mas sim pessoas representadas, porque é disso que estamos falando: pessoas.

E quando se pensa em algo natural podemos falar sobre a adolescência que “Hoje eu Quero Voltar Sozinho” (2014) mostra e todas as descobertas que esse momento da vida traz. A polêmica pureza de “Do Começo ao Fim” (2009) que, com todas as controvérsias que a narrativa pode apresentar, mostra só uma história de amor. Ou ainda “Amor à Vida” (2013-2014), a novela com o personagem Félix que, apesar de tido como um vilão e todas as suas atitudes questionáveis, não tinha seu caráter definido pela sua orientação sexual. Pelo contrário, quando se aproximava da sua história pessoal era o momento em que ele se mostrava mais humano. E muita gente se lembra do beijo final entre ele e o personagem Nico, outro muito importante na narrativa especialmente pela sua representação, considerando um marco na nossa TV, apesar de não ter sido realmente o primeiro beijo gay a ser exibido na televisão aberta.

Essas são só algumas entre tantas outras produções que temos hoje em filmes, novelas e séries com uma representação cada vez mais perto do ideal.

 

Visi(BI)lidade na mídia

A letra “B” é um tanto quanto apagada da sigla LGBT+ e pode sofrer discriminação tanto por parte de homossexuais quanto por parte de heterossexuais. Popularmente são vistos como indecisos quanto à sua própria sexualidade. Dessa forma, ainda hoje há pouco espaço representado nos meios de campanhas contra discriminação, promoção de informações e conscientização ou, até mesmo, uma representação no meio de mídia e entretenimento.

Desde 1999 o dia 23 de setembro foi escolhido por três ativistas dos direitos bissexuais dos Estados Unidos: Wendy Curry do Maine, Michael Page da Flórida, e Gigi Raven Wilbur do Texas, para celebrar a bissexualidade e dar voz a essa parcela da população esquecida pelos debates sociais – muitas vezes realmente discriminada. A data é uma resposta à marginalização que essas pessoas sofrem dentro e fora da comunidade LGBT+ convidando a discutir e combater a bifobia presente na sociedade, ainda que velada e camuflada em outras formas de se manifestar.

Já há algum tempo a representação da diversidade sexual no meio do entretenimento aumentou significativamente, ainda que esteja longe de uma dimensão e construção ideal. Porém a representação da bissexualidade ainda deixa a desejar. Segundo dados da GLAAD², o número de personagens bissexuais aumentou e dentre esses números as mulheres estão mais representadas. Mas isso dá a falsa impressão de que elas são mais aceitas quando, na verdade, algumas ainda estão sendo fetichizadas e sexualizadas.

² Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, uma organização não governamental com o objetivo de monitorar a forma com que a mídia retrata pessoas LGBT+, fundada em 1985 em NY em resposta a cobertura sensacionalista de uma epidemia de AIDS.

Da esquerda para a direita, na primeira linha: Oberyn Martell de Game of Thrones, Treze de HouseStella Gibson de The Fall; na segunda linha: Sara Lance de ArrowLegends of TomorrowBarbara Kean de Gotham e Zakia de Sense8.

Podemos observar alguns desses personagens em algumas séries atuais. Em Game of Thrones, por exemplo, Oberyn Martell, um príncipe de Dorne, tem sua bissexualidade representada de forma intrínseca ao personagem e relevante para sua narrativa. É mostrado com certa promiscuidade embora sua liberdade sexual seja natural da cultura de sua origem. Ainda na mesma série, Daenerys Targaryen³, última herdeira legítima ao trono de ferro, é mostrada discretamente como bissexual. A personagem se relaciona com ambos os gêneros, mas apenas seus relacionamentos com homens são mostrados como algo fixo e estável. Há um motivo narrativo e um contexto para isso, mas acaba por reforçar uma ideia de que a bissexualidade é uma fase ou uma indecisão.

³ Referente majoritariamente à narrativa do livro.

Em House, Treze era a concorrente número 13 durante a seletiva para a nova equipe médica de Dr. House. A equipe chega a desconfiar de sua bissexualidade, e ela logo é confirmada quando sua amante vai parar no hospital em um dos episódios. O contexto sugere que ela tinha várias relações, contudo, Treze era  a única personagem promíscua e coincidentemente bissexual. Entretanto ela é uma excelente personagem, inclusive com um discurso que reitera mensagens de valor.

Na série TheFall, ainda no início da série, o espectador é apresentado a assassinatos em série e acompanha um jogo de poder entre o assassino e Stella Gibson. A personagem age com profissionalismo e sua bissexualidade é só um traço da sua identidade revelado discretamente ao longo da trama, através de falas e dos nuances de suas relações pessoais.

Em contrapartida, em Arrow e presente também em Legends of Tomorrow, o espectador é apresentado a Sara Lance e seu antigo amor com extrema naturalidade e sem haver uma problematização. A bissexualidade da personagem é mais presente em Legends of Tomorrow.

Em Gotham, Barbara Kean começa a série em um relacionamento com o comissário Jim Gordon, como uma dama da alta sociedade. Ainda no início da série sua bissexualidade é revelada para o público quando é mostrado que ela tinha um relacionamento antigo com a policial Montoya. Posteriormente Barbara estabelece uma relação com a irmã de Galavan após integrar sua equipe de criminosos. Relação essa representada de forma fetichizada e objetificada entre duas vilãs.

Durante a segunda temporada de Sense8, Capheus conhece Zakia, uma jornalista bem sucedida que faz ele enxergar possibilidades que até então o personagem não tinha se atentado dentro da sua bolha social. Ela o motiva a entrar para a política por acreditar em sua índole e ter esperança que ele possa ajudar a população local. Ambos desenvolvem um relacionamento e a nova personagem é apresentada como bissexual de uma forma muito natural e fluida na narrativa, como mais uma característica dela.

O caráter de uma pessoa não é definido pela sua sexualidade e sua identidade não se resume a isso, seja dentro ou fora da ficção. Assim, ela não pode ser representada como o único traço que molda o ser humano de forma a reforçar essas concepções. Já existem vários conceitos para serem desconstruídos e redefinidos diariamente. Reforçar um estereótipo em personagens, atualmente, é um desserviço para a luta por igualdade de reconhecimento.

Assim como na vida muitos aspectos nossos não definem nosso caráter, mas nos formam como pessoas. É importante estar representado. A comunidade LGBT+ enfrenta uma luta diária para ganhar esse espaço e é ainda mais importante ter essa representação sem os estereótipos nos quais sempre foi colocada.

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Aline Doria
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Natural do interior de São Paulo, aos 29 anos é radialista pela Unesp, colunista da revista, apaixonada pela cultura geek, escritora, leitora e seriadora compulsiva.