A mídia nostálgica da nova década

2016/Joseph Shelton/REDDIT

Não é surpresa para ninguém que adoramos reviver momentos — seja em nossas cabeças, olhando de novo para álbuns de fotos, ou apertando play mais uma vez naquela série que gostamos. A cultura que nos envolve é uma cultura de nostalgia: sebos se alastram pelo cenário urbano central, contendo de livros a vinis, e frequentá-los tornou-se um hábito cool e de valor alto. Lembranças custam caro e memórias trazem lucro, logo as produções midiáticas em desenvolvimento nos últimos 10 anos apresentam diversas formas de atrair esse público que ama estar por perto de experiências já conhecidas.

A Netflix sabe utilizar bem desse trunfo. Faltaram ideias? Sem problemas! Basta reciclar algumas referências ali e outras aqui para criar — ou recriar — a nova sensação do momento. A fórmula parece pouco sólida e clichê, mas funciona. A segunda temporada de Stranger Things está aí para provar isso, pois a primeira foi curtida de forma tão intensa que sua sequência foi assistida imediatamente este ano por cerca de 4, 6 milhões de espectadores durante três dias. Misturar os anos 80 contando com easter eggs sobre filmes de sucesso daquela década, games e obras literárias nunca deu tão certo! O que mais impressiona é ter funcionado não só com quem era apegado a esses tempos de adolescência, mas sim com quem sempre sonhou ter vivido tempos em que sequer havia nascido.

Essa onda de retomar conceitos e estruturas de roteiro e imagem não se atém apenas aos serviços de streaming. Mesmo que estes sejam o nicho principal onde isso acontece — só nos últimos anos tivemos Stranger Things como um culto à nostalgia, novas temporadas de Gilmore Girls e afins — as telonas também têm recebido esse impacto provocado pelo público. Ghost in the Shell e Blade Runner 2049 são dois títulos lançados em 2017 que trazem toda a euforia da ficção-científica do início dos anos 90 ao alvorecer dos anos 2000. Não se deixe enganar. Não é mero acaso. Tudo é arquitetado para cruzar conhecimentos que estão sendo construídos pela nova geração de consumidores ao longo de cada novo lançamento.

Um filme ou uma série não provoca apenas vendas direcionadas ao consumo de DVDS e blu-rays, eles geram uma verdadeira comoção em massa de fabricantes de brinquedos, produtores de arte, indústrias de pirataria e diversas outras engrenagens que, por sequência, giram em conjunto no aguardo da oportunidade perfeita para atrair aqueles fãs fervorosos. Entrar em uma loja de público infantil no natal deste ano é algo que se assemelha a uma revivência da nossa criança interior. As prateleiras estão, desde agora, cheias de Power Rangers, Tartarugas Ninja, Batman e Pokémon. Todos como produtos resultantes da reconstrução de cenário audiovisual pelo qual passamos de 2010 para cá.

As músicas nunca tiveram uma influência tão grande dos anos 2000 e final dos anos 90. Reggaeton que ressurge para dominar as pistas de dança, o funk que pega as rádios e a cultura drag vívida nos Estados Unidos de 90 e tantos agora pulsa no Brasil. Além disso, até as animações receberam uma repaginada para se adequar ao novo público: Pokémon sendo exibido em telas brasileiras para comemorar os 20 anos da franquia, Dragon Ball com nova temporada… Vivemos a mesma TV Globinho de nossa infância, agora em proporções muito maiores e com pessoas de mais idade atentas à televisão.

Por que nos apegamos tanto ao que já conhecemos? Por que temos essa ansiedade por ver continuações e repaginadas naquilo que gostamos?

São tempos diferentes e de lotados de grandes problemas — políticos, atômicos, de fome e de pobreza. Os últimos dez anos que antecederam esse período de caos foram, de certa forma, equilibrados. Se apegar a tal calmaria, ao momento em que nós, como crianças, não tínhamos preocupação em eleger um representante para cuidar de nosso país ou no que resultaria a disputa entre Estados Unidos e Coréia, é uma válvula de escape. Seja ela provocada por um sistema, ou vinda de nossas vontades, o fato é que se torna mais fácil digerir um mundo em ruínas quando temos algo bom e pacífico para viver e experienciar mais uma vez. Devemos ser cautelosos quanto à uma única coisa: se não cuidarmos do que acontece agora, na próxima década, os nossos tempos é que serão relembrados pelas crianças de hoje.

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Delson Neto
About Delson Neto 3 Articles

Colunista, escritor, professor e amante da cultura pop. Música, animações e seriados sempre fizeram parte da sua rotina, sendo suas principais fontes de inspiração junto às observações da vida em si.

1 Comentário

  1. Pura verdade! Tanto é que a maioria das crianças, hoje, dizem possuir uma profunda admiração pela história e mostram um certo medo e desinteresse quanto ao futuro…

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