Não precisa ser natal

Presentear tornou-se um hábito com o passar das gerações na nossa sociedade – se pegarmos as referências mais globais, como a da Bíblia, por exemplo, já vemos com clareza o desenrolar dessa história: ao visitarmos alguém que chega ao mundo, ou ao estarmos rodeados por pessoas que muito admiramos, levamos algo que possa aquecer seu coração. Seja uma lembrança ou um pedido atendido, os presentes funcionam como um artifício capaz de fortalecer vínculos e de nos unir por instantes que não costumam ser tão frequentes no fulgor do dia a dia.

Condicionados pela expressão de nossos sentimentos, os planejamentos para dezembro e para o final do ano trazem alívio aos ombros que carregaram preocupações e responsabilidades. Quando nos preocupamos em usar o final de semana para embarcarmos na jornada pelos presentes de natal, não estamos apenas agindo em função de uma data ou pelo capitalismo intrínseco a esse momento, mas sim pela magia que se espalha por aí quando enfim podemos ter uma noite ao lado dos familiares, amigos ou daqueles que escolhemos para ficar ao nosso lado.

Há sim muita crueldade nessa eterna roda de datas comemorativas. Todo mundo sabe, mas finge não enxergar, e uma boa parcela se dedica a ser mais altruísta nesses momentos em que muito é exigido e pouco é cedido aos outros que tanto precisam. Contudo, ainda que não diminuindo esse lado caótico da chegada do Papai Noel, o presente aqui permanece um símbolo de união. Campanhas de caridade são erguidas, escolas abrem os portões para receber doações destinadas a lares de adoção, mercados destinam parte da renda para os necessitados; pessoas separam em suas casas aquilo que não mais precisam para que torne a ganhar vida na mão daqueles que pouco tem. Cria-se um senso comum de que não viemos sozinhos a este mundo e de que precisamos sim abrir os braços não só para receber abraços, mas também para dá-los.

Essa onda de doações, pacotes sob da árvore e de lembrancinhas mostra que existe bondade, amizade e a necessidade de alicerces em nós. Muito nos faz pensar sobre como ficamos distantes dessa emoção de entregar algo para outra pessoa – e de se entregar.

Passou a ser uma demonstração de vulnerabilidade chorar e demonstrar alegria por estar ao lado de quem se ama, ou de trazer uma emoção muito grande à tona em situações que não costumam ser típicas. Com o passar do ano guardamos tudo no peito e na última quinzena aproveitamos para revelar cada segredo engolido e lágrima congelada. Tudo isso a troco de que? Medo? Frustração?

Entregar um presente provoca essa “lavada na alma”. É quase como o início de uma catarse que se dá no Natal e termina logo que a noite do ano novo se desfaz. Talvez, se o costume de preparar uma embalagem e de mostrar os sentimentos, colocando-os com um laço de fita, fosse mais rotineiro e menos restrito a episódios de comemoração, fôssemos pessoas mais unidas. Às vezes uma cartinha escrita à mão vale mais que qualquer objeto em uma prateleira. Essa união esporádica cria uma sensação artificial ao sentimento, por mais honesto que ela seja, e caso fosse mais comum, famílias podiam viver momentos de felicidade que se sobrepõe ao estresse das semanas.

Se a magia do natal é capaz de nos unir, para que deixá-la escapar? Aos poucos convergimos para uma sociedade mais empática, onde o estender de mãos ao próximo pode se tornar mais habitual. Quem sabe não vamos precisar, daqui muitas e muitas rodas de ciclos, de pinheirinhos e pisca-piscas, ou de um bom velhinho invadindo nossas chaminés – nós poderemos, simplesmente de um dia para o outro, na esquina de casa ou dentro dela, fazer a noite de alguém mais estrelada com um presente de afeto.

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Delson Neto
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Colunista, escritor, professor e amante da cultura pop. Música, animações e seriados sempre fizeram parte da sua rotina, sendo suas principais fontes de inspiração junto às observações da vida em si.

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