Quando seu vizinho é um psicopata

Incontáveis correntes de pensamentos e religiões ao redor do mundo carregam na sua teoria a ideia de um antagonismo interior próprio de todo ser humano, isto é, referindo-se à nossa capacidade de sermos bons ou maus. Na obra “O mal-estar da civilização”, o psicanalista Sigmund Freud fala pela primeira vez na história da psicologia sobre o conflito real entre os impulsos instintivos existentes no ser humano e a repressão deles pelas regras impostas na sociedade.

Anteriormente, para que o homem pudesse sobreviver ele precisava matar quando se sentia ameaçado, assim como os animais fazem. Porém, com o advento da civilização, o ser humano foi obrigado a conter seus instintos para que fosse possível viver em uma sociedade onde um depende do outro. O resultado desse dilema é a culpa. Tal sentimento vive no interior do homem até hoje, fazendo-o lidar com ele constantemente para que não se deixe levar por um momento de ira.

Se todos os crimes violentos fossem motivados apenas por um lapso de descontrole, seria fácil entender o que leva uma pessoa a se tornar um criminoso: uma onda incontrolável de instinto animal, natural ao ser humano, fala mais alto no momento de querer resolver algum problema de convivência.

A maneira arcaica de resolver desafetos foi, justamente, controlada pela civilização para que a raça humana não fosse extinguida por ela própria. Mas se um crime não ocorre pelo “impulso” então qual seria a explicação para crimes perversos que exigiriam planejamento e sangue frio?

 

O psicopata mora ao lado

Manipuladores, inteligentes, egoístas, antissociais, introspectivos, irresponsáveis e livres de remorso: essas são algumas características de quem realiza a maioria dos crimes considerados bárbaros. Este perfil leva a um tipo de transtorno chamado de distúrbio de personalidade antissocial. O indivíduo que sofre desse transtorno age indiferentemente ao sentimento alheio, criam seus próprios valores e conduta e, embora não costumem agir impulsivamente quebrando as regras e as leis impostas pela sociedade, podem fazê-lo sem a censura psicológica que a maioria das pessoas teria.

Estudos especializados apontam nos psicopatas um comprometimento de determinados estados mentais essenciais para a vida social, como a falta de emoções em relação a outros indivíduos.

O distúrbio é mais comum do que se imagina. Estudos indicam que cerca de 2,5% da população sofra do mal. Nos Estados Unidos, calcula-se que 3/4 da população carcerária sofra de psicopatia. No Brasil não há esse tipo de levantamento, no entanto, ser diagnosticado com o distúrbio não ajuda a diminuir a pena.

Apesar da característica do distúrbio, nem todo psicopata é assassino ou criminoso. Os que não partem para a violência física podem ser caracterizados por diversas marcas, como mentiras, impulsividade, desorganização financeira e, principalmente, imprevisibilidade de ações. São os chamados psicopatas comunitários, que podem ser pessoas sociáveis, ainda que possuam um comportamento conflituoso geralmente na família e no trabalho. Por isso, é importante frisar que nem todo assassino é psicopata e nem todo psicopata é assassino.

 

Um mal cultural

Aspectos sociais e culturais também são motivos que podem levar a agressões cometidas – principalmente contra mulheres, e em diversos lugares do mundo. Os chamados “crimes para defender a honra” são justificados em caso de suspeita de adultério.

Em países como Peru, Paquistão, Nigéria, Bangladesh, Índia, Afeganistão e Palestina, a mulher ainda é vista como propriedade e muitas sofrem maus tratos. Em Bangladesh, por exemplo, são comuns os casos em que mulheres chegam aos hospitais com as faces deformadas por água fervente ou ácido, crimes cometidos, na maioria dos casos, pelo próprio marido.

A mulher como objeto de posse é um conceito histórico. A violência, nesses casos, não pode ser considerada como fruto de arroubos sentimentais, mas como “um direito” exercido por aquele que o pratica. Isto é, embora essas ações não possam ser exatamente diagnosticadas como psicopatia, podemos dizer que sociedades inteiras ainda sofrem de doenças ocasionadas pela cultura.

 

Serial-killers

Os assassinos em série possuem um perfil psicopatolólogico e são famosos por cometerem crimes brutais, geralmente, envolvendo formas cruéis e sistemáticas de matar. Alguns desses indivíduos somam centenas de vítimas. Abaixo, uma lista com os 10 serial-killers que mais mataram no mundo:

  1. Luis Garavito: O colombiano, também conhecido como La Bestia, admitiu ter matado e estuprado mais de 130 meninos e rapazes na década de 1990, porém, calcula-se que o número total de vítimas pode ultrapassar 400.
  2. Thug Behram: O indiano tem comprovado em sua ficha 125 estrangulamentos, no entanto, estima-se que foram mais de 900. Seus crimes ocorreram entre os anos de 1790 e 1840.
  3. Pedro Lopez: Mais um colombiano, Lopez é conhecido como monstro de Andes por ter matado meninas no Equador, Peru e Colômbia. No total, cerca de 300 crimes foram cometidos, porém, o assassino foi condenado apenas pelos 110 crimes no Equador.
  4. Elizabeth Báthory: A única mulher na lista era da realeza húngara e foi acusada de torturar e matar 80 servas entre os séculos XIV e XV. Porém, registros indicam que mais de 600 jovens teriam sido mortas. Elizabeth nunca pagou pelos seus crimes.
  5. Daniel Barbosa: Outro colombiano que atuou no Equador. Chamado de El sádico del Chanquito, estuprou e matou ao menos 71 garotas e mulheres entre os anos de 1984 e 1986, porém as autoridades estimam que o número pode passar de 150 pessoas.
  6. Pedro Rodrigues Filho: O brasileiro da lista, Pedrinho Matador, como era conhecido, tinha como vítimas outros criminosos. Só dentro da prisão, assassinou mais de 40 presos. Não se sabe a quantidade correta de mortos, mas estima-se que seja entre 70 e 100.
  7. Gary Ridgway: O estadunidense está atrás das grades até os dias de hoje. Foi preso em 2001 por crimes cometidos nas décadas de 80 e 90 e confessou ter assassinado, pelo menos, 71 pessoas.
  8. Xang Xinhai: O chinês fazia suas vítimas invadindo as casas durante a noite. Ele matou 65 pessoas além de estuprar outras 23.
  9. Henry Howard Holmes: Herman Webster Mudgett, mais conhecido como Dr. Henry Howard Holmes, foi o primeiro serial-killer documentado nos Estados Unidos. O criminoso matou a maioria de suas vítimas em um hotel. 27 assassinados foram comprovados, mas suspeita-se que centenas de crimes foram cometidos na segunda metade do século XIX.
  10. Harold Shipman: O médico inglês assassinava suas vítimas com doses letais de diaceltilmorfina (heroína). Em 2000, ele foi condenado pela morte de 15 pacientes, mas depois de sua prisão cerca de 250 mortes foram ligadas a ele.

 

Emoções Faciais

Diversos ramos da psicologia são desenvolvidos para compreender as pessoas e suas ações. A cognição social é um dos campos de estudo que investiga a forma como as pessoas compreendem as outras e elas mesmas por meio de suas ações. Em certos transtornos mentais como a psicopatia há alterações significativas na cognição social. Uma das maneiras de aliviar tais alterações é por meio da interpretação das emoções expressas pela face. Pesquisadores no mundo todo vêm estudando a capacidade dos psicopatas e crianças com tendência à doença apresentarem uma menor capacidade de identificar algumas emoções em outras pessoas, como medo e tristeza. No entanto, as pesquisas ainda não são conclusivas. Esse tipo de informação é importante uma vez que contribui na compreensão do transtorno, além de ajudar no diagnóstico da doença dos indivíduos.


Dica de Leitura

É possível reconhecer um psicopata? “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado” da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva discorre sobre pessoas frias e manipuladoras, mas que exercem as atividades rotineiras como qualquer outra. Um psicopata pode estar sentado à sua frente no escritório, morar ao seu lado, ser até um amigo.

Vale a pena ler também “Entendendo o comportamento criminoso” de Geraldo Brenner, “501 crimes mais notórios” de Paul Donnelley e “Por dentro das mentes assassinas – A história dos perfis criminosos” de Paul Roland.

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Felipe Damazio
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Colunista, resenhista e colaborador do site e da revista. É fanático por séries e filmes e natural de São Paulo, possui 21 anos e é estudante de Jornalismo pela Anhembi Morumbi.

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