Rastros de ódio: um estudo sobre a crescente força do nazismo no mundo

Membros de uma aliança neonazista com bandeiras e suásticas em protesto em frente ao Capitólio. 2002/Mike Theiler/AFP/Getty Images

Com as recentes aparições de protestos neonazistas na mídia mundial e o notável aumento de seguidores, todos se perguntam: o que está acontecendo?

Recentemente, no Brasil e no mundo, os movimentos nacionalistas da extrema direita se tornaram assunto recorrente nos jornais. Isso ocorre porque o número de simpatizantes cresceu consideravelmente. Da mesma forma, a cada dia que passa, o neonazismo desenvolve novas estratégias para articular jovens ao movimento, dentre elas é possível citar, por exemplo, a utilização da moda — que possui o poder de distrair, incluir ou camuflar — como uma arma, tal como ocorreu durante o protesto de Charlottesville, em agosto de 2017, da internet e principalmente da fragilidade dos jovens. A nazificação ocorre quando o indivíduo é levado pelo delírio de que a raça branca vive à beira de uma extinção, provocada e articulada pelo povo judeu. Essa crença é desenvolvida a partir de teorias de conspiração e alcança cada vez mais adeptos, que creem fielmente que o Holocausto foi uma invenção arquitetada por um suposto “império judeu” em mais uma de suas tentativas de exterminar a raça ariana, e que os mesmos estão envolvidos em um plano maquiavélico de dominação mundial. Essa teoria é chamada de Negacionismo do Holocausto, que afirma que o genocídio de mais de 6.000.000 de pessoas, dentre elas homossexuais, negros e judeus, é mentira ou, no mínimo, exagero. Historiadores calculam que o número de mortos durante o Holocausto varia entre 5,1 e 6,2 milhões, mas os negacionistas afirmam que o número exato de mortos chega em torno de 500 mil pessoas. Mais do que fundamentado apenas em teorias, o neonazismo se baseia num culto ao ódio, oferecendo um possível sentido à batalha pela supremacia branca. Esse ódio pode ser fundamentado sobre três pilares, como cita o historiador Peter Gay:

O ódio é construído sobre três elementos – crença numa supremacia “natural” – se o branco não vence é porque foi sabotado; a criação de um “Outro conveniente” para assumir a culpa pelo próprio fracasso; e culto da masculinidade – desaloja qualquer possibilidade de diálogo. Há apenas paranoia: o povo branco vive em diáspora, visto que seus inimigos tomaram seu lugar para produzir seu genocídio. É uma resolução da incerteza pela violência.

Atualmente o delírio permanece firme e os extremistas podem contar com uma arma poderosa para buscar novos membros: a internet. Em poucos anos, de acordo com um estudo realizado pela antropóloga e pesquisadora da Unicamp Adriana Dias, o número de sites vinculados a grupos neonazistas subiu de 7.600 para 20.502 em 7 anos, um aumento de 170%. No mesmo período, o número de blogs e comunidades antissemitas cresceu mais de 500%.   Nazismo no Brasil? Ainda de acordo com Dias, a maioria dos grupos neonazistas no Brasil se concentra no estado de Santa Catarina, sendo, ao todo, mais de 45 mil pessoas, contagem que aumenta cerca de 6% ao ano. Isso ocorre porque o Vale do Itajaí é marcado por ter possuído a primeira sede do partido nazista no país, este que, nos anos consecutivos, obteve mais de 3 mil filiados, representando 10% dos imigrantes no sul. Mais do que isso, Santa Catarina também manteve dois campos de concentração durante o início da década de 40, um em Joinville e outro em Florianópolis, após o Brasil abandonar a neutralidade na guerra e lutar ao lado dos Aliados (Estados Unidos, França e Inglaterra) contra a Alemanha e os outros países do Eixo, como Itália e Japão. Porém, diferentemente da Alemanha da época, os campos tinham como função prender nazistas ou espiões infiltrados, fossem eles imigrantes comuns ou simpatizantes do movimento. Eles eram capturados, interrogados e até torturados sob a acusação de trabalhar em nome do nazismo alemão, contudo, nos registros não consta execução ou extermínio em câmaras de gás. O campo de Joinville ficava numa das planícies do terreno onde atualmente se localiza o Cemitério Municipal de Joinville, no bairro Atiradores, e até hoje podem ser encontrados itens ou heranças da época. É importante ressaltar que, embora Santa Catarina e outros estados da região possuam essa herança histórica, alguns eventos que envolvem o assunto podem não ser originários dali, como é o caso de um professor que construiu uma piscina com uma suástica — posteriormente foi descoberto que o mesmo professor tinha um histórico de declarações que podem ser consideradas, entrelinhas, elogios ao movimento nazista. O evento ocorreu no estado de Santa Catarina, porém o indivíduo em questão era natural de outro estado e não tinha descendência alemã.

Polícia de Santa Catarina fotografa uma suástica gigante numa piscina enquanto se deslocava em aeronave numa operação de resgate. 2014/Polícia Civil/ARQUIVO.

O fato mais preocupante é que o neonazismo e outras vertentes racistas e antissemitas, ainda após o fim da Segunda Guerra Mundial, fortalecem-se mais a cada dia e se tornam tendências internacionais com o passar dos anos. Muitas das heranças nazistas, como a intolerância, o racismo e a xenofobia ainda permanecem nas cascas da sociedade e a impressão que temos é a de que, ao invés de aprender com os erros cometidos no passado, muitos se negam a crer que eles ocorreram, tal como complementa a historiadora e pesquisadora brasileira da Udes, Marlene de Faveri: “Temos em Santa Catarina uma colonização europeia muito forte, imigrantes e descendentes que professaram e não aceitaram a derrota do nazismo. Há grupos no Estado que ainda se reúnem e festejam, por exemplo, o aniversário de Hitler”, e isso não ocorre apenas no Brasil, mas em todo o mundo.   O renascimento do nazismo no Brasil Mesmo após a derrota do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) que pôs fim a Segunda Guerra Mundial e expulsou o partido nazista da Alemanha, nos 30 anos consecutivos surge uma intensa movimentação de negacionistas. No Brasil, ainda que o governo de Getúlio Vargas tenha promovido a perseguição de espiões nazistas e imigrantes alemães, detendo-os em campos no estado de Santa Catarina, em 1985 foi fundada a Editora Revisão por Siegfried Ellwanger Castan, que se tornou a maior expressão do neonazismo e do movimento negacionista no país. Muitos livros vendidos pela editora são da autoria do próprio Castan. Seu livro mais conhecido se chama “Holocausto judeu ou alemão?”, traduzido para diversos idiomas, entre eles o alemão, o inglês e o espanhol, e promulga argumentos que buscam sustentar o negacionismo e toda a teoria do suposto império judeu e sua dominação mundial.

Primeira entrevista do autor gaúcho S. E. Castan ao Caderno C, jornal de Santa Catarina, sobre seu livro “Holocausto Judeu ou Alemão?”. 1988/Moacir Loth/CADERNOC.

Em sua primeira entrevista cedida a Moacir Loth à um jornal catarinense chamado Caderno C, Castan promove sua crença de que até o fim do século “serão revelados cada vez mais fatos que derrubarão para sempre as barbaridades atribuídas ao Führer”. Na mesma entrevista, falando sobre seu best-seller “Holocausto Judeu ou Alemão?”, Castan responde à uma das perguntas de Loth — “O Sr. passa a ideia de que os grandes provocadores da guerra foram os judeus. Hitler não queria a guerra, foi “empurrado” para a guerra?” — da seguinte maneira:

Eu não passo a idéia, mas transmito no livro as afirmações de Neville Chamberlain para James Forrestal sobre o motivo da guerra, bem como o relatório do Conde Jerzy Potocki, embaixador polonês nos EE.UU., que não deixa a menor dúvida no caso. No dia 02/06/1937, o jornal “O Globo” (RJ), deu a seguinte notícia: “O senador Schwellenbach, representante democrata de Washington, afirmou que, embora deplorasse a possibilidade de uma guerra européia, tal conflito serviria para dar um novo e forte impulso ao desenvolvimento do comércio e da indústria dos EE.UU.”.

O crescimento do nazismo no Brasil e no resto do mundo, dando origem ao neonazismo — movimento que retoma a doutrina nazista — ocorre por conta do surgimento de pessoas como S. E. Castan, dispostas a distorcer fatos históricos e promover o retorno da crença em uma supremacia ariana.   Do nazismo ao neonazismo: o ressurgimento da cultura da intolerância pelo mundo O crescimento da quantidade de grupos antissemitas nos últimos anos fez com que antropólogos e outros estudiosos também passassem a buscar compreender o fenômeno. Dentre todas as explicações encontradas, uma das mais plausíveis e aceitas pelos profissionais é a de que os jovens que constituem os grupos neonazistas — estima-se que a maioria seja formado por homens entre seus 16 e 25 anos — buscam o movimento a fim de encontrar respostas para questões familiares, pessoais e sociais; todos atrás de um sentido para suas próprias vidas. Outro fator de peso nesse índice é a imigração ilegal em países europeus e nos Estados Unidos. Simultaneamente, ocorre uma difusão da cultura afro-americana e latina no resto do mundo. Isto é, a Alemanha e outros países do mundo, principalmente após as guerras no Oriente Médio, passaram a atrair milhares de imigrantes e, dessa forma, as organizações racistas e xenófobas exploram a vulnerabilidade dos jovens e cultivam o sentimento de rejeição aos estrangeiros e o medo da extinção da raça superior, a branca. Atualmente são conhecidos os seguintes grupos vinculados ao neonazismo — ainda que não assumam isso por medo de represálias: Aryan Nations, Ku Klux Klan, Neuland (brasileiro), Skinhead White Power (vertente racista e neonazista do movimento Skinhead), Stormfront, White Aryan Resistance (WAR) e White Power. O que todos esses grupos extremistas procuram é, na verdade, um culpado para os problemas rotineiros, que na maioria das vezes é uma minoria, seja ela étnica, política ou religiosa.   O Paradoxo da Tolerância Inspirado pela invasão nazista na Áustria em 1938, 7 anos depois, no 1º volume do livro The Open Society and Its Enemies (em tradução livre: A Sociedade Aberta e seus Inimigos) — um dos 100 melhores livros de não-ficção de todos os tempos segundo o The Guardian — o filósofo austríaco Sir Karl Popper (1902-1992) definiu uma teoria que chamou de “Paradoxo da Tolerância”, que diz que a “tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”, e ainda diz, na primeira linha da obra, que “para que a civilização sobreviva devemos quebrar nosso hábito de sempre consentir com os poderosos”.

Em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, Popper introduziu a sua teoria, que diz que uma sociedade tolerante deve ser tolerante com a seguinte exceção: não devemos tolerar a intolerância. É um paradoxo, pois indica que uma sociedade completamente tolerante deve ser também intolerante. “Se estendemos nossa tolerância ilimitada inclusive àqueles que são intolerantes, então não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes. Logo, o tolerante será destruído e a tolerância se vai com ele”. E o filósofo ainda faz um pedido em nome do fim da tolerância sem limites: “Devemos reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante”.

Karl Popper concluiu em seu livro que estamos permitidos a recusar a tolerância à intolerância.

34 anos após o lançamento do livro de Popper, o também filósofo John Rawls, em A Theory of Justice (Tradução livre: Uma Teoria de Justiça), prejulga que uma sociedade devidamente justa deve tolerar o intolerante, pois, do contrário, a sociedade será si própria intolerante e, portanto, injusta. Entretanto, ele também insiste, tal como Popper, que a sociedade tem o direito de auto-preservação que supera o princípio da tolerância.

Qualquer movimento pregando a intolerância e a perseguição deve ser considerado como crime, pois, por mais paradoxal que possa ser, a tolerância exige não tolerar o intolerante.

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Fernanda Scheffler
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Diretora administrativa da revista e do site Entrelinhas, carioca, 20 anos, técnica administrativa, estudante de psicologia, professora e escritora apaixonada.

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