Tempos de intolerância

1763/Capa de edição indeterminada do livro "Tratado sobre a Tolerância", de Voltaire.

Quando nos daremos conta de que, por trás de cada ser-humano diferente de nós há uma pessoa com sentimentos, sonhos, expectativas e desejos?

Vivemos, no Brasil e no mundo, tempos de intolerância. Toda vez que a oposição de ideias ou crenças abandona o campo do debate, da argumentação racional e precipita na agressão verbal ou física, temos aí um caso irrefutável de intolerância.

A intolerância, do ponto de vista de quem a pratica, implica na impossibilidade de convivência, sob qualquer forma, entre pessoas que divergem em seu modo de ver e interpretar o mundo.

Nos casos mais extremos, a possibilidade de coexistência entre os divergentes não é sequer tolerada. É preciso extinguir, aniquilar, derrotar, converter os adversários. Todo o esforço é feito no sentido de ampliar ainda mais a supremacia da corrente dominante.

Todo ato praticado no sentido contrário dessa corrente é imediatamente rotulado como subversivo, corruptor, maléfico e que, portanto, deve ser combatido com veemência.

Historicamente, a intolerância — ou o seu princípio oposto que é o da Tolerância —, desde a Antiguidade até a Idade Média, eram predominantemente aludidos em questões de caráter religioso; a percepção da necessidade da Tolerância para uma convivência civilizada no Ocidente foi ganhando corpo — e vozes — após os enfrentamentos cada vez mais frequentes e violentos de facções cristãs oriundas da Reforma Protestante com o Catolicismo, no século XVI.

Porém, a defesa da Tolerância mais enfática, embora não acrescentasse muito ao que já havia sido apresentado sobre o tema do ponto de vista filosófico, mas que tornou-se famosa pelas consequências que produziu em seu tempo, foi a de Voltaire, em seu ‘Tratado sobre a Tolerância’. Esse tratado foi redigido por ocasião da condenação e morte de Jean Calas, um protestante que foi acusado injustamente de ter matado o seu próprio filho, que pretendia abjurar o protestantismo em favor do catolicismo. Nele, Voltaire discorre com extremo brilhantismo sobre o caso Calas em si, sendo contrário ao julgamento e à sentença que dele resultou; a reforma protestante do século XVI; os possíveis “perigos” da Tolerância; como ela pode ser admitida; se a intolerância encontra fundamentos no direito natural e no direito humano; se a intolerância foi ensinada por Jesus Cristo; entre outras reflexões pertinentes à época para embasar a sua opinião. Desse tratado, pode ser extraída a “Prece a Deus”, magnífico texto disponível para leitura ao final deste artigo e que convida à uma profunda reflexão.

Embora atualmente o conceito de Tolerância não esteja limitado apenas ao discurso religioso, quando aplicado em outras áreas como a Filosofia, Política e Ciências Sociais não se distingue muito do conceito de Liberdade e seus problemas característicos de limitação e condicionamento.

Entretanto, ainda que a Tolerância seja desejável na maioria das situações, ela não pode ser considerada como um direito absoluto: a Tolerância não é aceitável, por exemplo, com práticas que sejam contrárias à vida ou à dignidade humanas.

Infelizmente, casos cotidianos de intolerância religiosa, racial, social e afetiva ainda necessitam de vozes que a denunciem e condenem. Atentados terroristas, homossexuais e transgêneros assassinados, índios e mendigos queimados, racismo explícito nas redes sociais, enfim, um vasto e condenável leque de práticas horrendas e abjetas que precisam ter um fim.

Mais de 250 anos após a publicação do Tratado, a intolerância ainda persegue, humilha, tortura, mata. Quando nos daremos conta de que, para além de todas as diferenças raciais, étnicas, religiosas, sociais, afetivas, somos todos seres-humanos e merecedores de igual dignidade? Quando nos daremos conta de que as nossas diferenças são infimamente inferiores às nossas semelhanças? Quando nos daremos conta de que, por trás de cada ser-humano diferente de nós há uma pessoa com sentimentos, sonhos, expectativas e desejos? Quando nos daremos conta de que para professar a minha fé ou viver segundo meus valores morais não é preciso anular ou atacar o próximo? Quando nos daremos conta de que as diferenças podem coexistir se praticarmos um pouco mais a nossa empatia?

“Ame o próximo como a ti mesmo”. “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”. Dois sábios ensinamentos tanto mais antigos que o tratado de Voltaire e que ainda precisam ser interiorizados e aplicados em nossas vidas.

 

Prece a Deus — François-Marie Arouet (Voltaire), 1763:

“Já não é mais aos homens que me dirijo; é a Ti, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos: se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidade e imperceptíveis ao resto do Universo ousar pedir-Te alguma coisa, a Ti que já lhes deste tudo, a Ti, cujos decretos são tão imutáveis como eternos, digna-Te a olhar com piedade os erros inerentes à nossa natureza; que esses erros não nos tragam calamidades. Tu que absolutamente não nos deste um coração para que nos odiássemos, nem mãos para que nos matássemos, faze com que nos ajudemos mutuamente a suportar os fardos de uma vida penosa e passageira; que as pequenas diferenças entre as vestes que cobrem nossos débeis corpos, entre todas as nossas linguagens insuficientes, entre todos os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas condições tão desproporcionadas a nossos olhos, porém tão iguais perante os Teus; que todas essas pequenas nuances que distinguem entre si os átomos chamados homens não sejam mais motivos de ódio e de perseguição; que esses que acendem círios à luz do meio-dia para Te celebrar suportem aqueles que se contentam com a luz de Teu sol; que esses que cobrem suas vestes com uma toalha branca para dizer que é preciso Te amar não detestem os que dizem o mesmo quando usam um manto de lã negra; que seja a mesma coisa Te adorar em um jargão derivado de uma antiga língua, ou em um dialeto mais moderno; que esses cujas vestes são tintas de vermelho ou de roxo e que dominam uma pequena parcela de um pequeno fragmento de lama deste mundo e que possuem alguns fragmentos arredondados de um certo metal gozem sem orgulho daquilo que chamam de grandeza e de riqueza e que sejam contemplados pelos outros sem inveja; pois Tu sabes que nessas vaidades não existe nada para ser invejado, nada de que se orgulhar.

Que todos os homens possam recordar que são irmãos! Que encarem com horror toda tirania exercida sobre as almas, assim como sentem execração pelos salteadores que arrebatam pela força o fruto do trabalho e da indústria! Se os flagelos da guerra forem inevitáveis, que não nos odiemos uns aos outros no seio da paz e empreguemos este instante que é nossa existência a bendizer igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia, Tua bondade que nos deu este instante”.

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Felipe Cao
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Aos 31 anos, natural de Jundiaí – São Paulo, é Engenheiro com pós-graduação em Administração de Empresas, dedicando seu tempo livre à família, à música e à revista. Músico e leitor assíduo, procura sempre renovar e ampliar a sua biblioteca particular.

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