Vestindo medos, trajando emoções

As datas festivas se aproximam — e esboçam para nós, inseguros em nossas bolhas, a oportunidade perfeita para exibirmos tudo aquilo que recolhemos ao longo da rotina diária de acordar, levantar e seguir vidas normais do ônibus para o trabalho e do trabalho para casa. É como um impulso perfeito que surge para darmos um passinho breve pra fora da realidade, e assim que o fuzuê passa, nos obrigamos a colocar o cabresto de novo, essa peça tão essencial para nossas fantasias de seres humanos.

Pode parecer um tanto quanto prepotente à primeira vista falar que todos já sentimos vontade de nos tornarmos outra pessoa, entretanto, na mesma medida é difícil lembrarmos qual foi a última vez em que nos sentimos completos ao encarar o reflexo no espelho. Sempre tem aquela espinha no rosto, uma pintinha nova, lábio ressecado ou cabelo fora de corte e penteado. Isso sem lembrar das reviravoltas internas, que engana-se e muito quem acha que elas não transparecem pelos nossos poros. Veja, é normal que tenhamos tamanha insatisfação com nossas pequenas existências com um ambiente tão hostil quanto o nosso mundo: ele nos cobra o tempo inteiro, nos implora para sermos melhores, mais bonitos. E evidentemente menos honestos com quem desejamos ser.

Começamos o ano de férias e com carnaval pela frente: tá liberado jogar purpurina no rosto, tirar aquela roupa brega do armário e enfeitar pra sair de casa. Surge entre o início e final do semestre um amigo com uma boa festa à fantasia, pensamos no traje e passamos horas nos arrumando para chegarmos chegando. A satisfação de encher o corpo de apetrechos que nos tiram do foco diário e regrado é intensa, mas ela se desfaz no outro dia com a ressaca. O questionamento que surge no outro dia talvez seja mais denso do que simplesmente pensarmos sobre quantos drinques passaram pelas nossas mãos, ou se quem vimos e conhecemos na noite anterior de festança lembrará de nosso rosto maquiado, disfarçado, para melhor dizer. O cerne dessa terrível interrogação matinal trata-se de uma reflexão: por que não podemos nos desprender desses limites todos os dias?

De segunda à sexta-feira usamos a nossa máscara de homem ou mulher comum, mas não parece certo que tantas cores fiquem escondidas e tantas sensações durmam em nosso peito até que uma oportunidade surja para que sejam libertas. O dia 31 de Outubro traz consigo um fenômeno ainda mais peculiar quanto aos disfarces sobre nossa carcaça. O cair do luar no Dia das Bruxas não só liberta a euforia de revelar o “eu” brilhante e conflituoso de cada um – ele joga luz sobre tudo que nos amedronta e nos tira o sono por noites a fio, evidencia as dores e temores. Envolvemos os braços nessa vontade de combater o medo e durante uma única noite nos tornamos os monstros que tanto combatemos.

De Jack O’ Lantern até figuras mais pop, tal como memes ambulantes e figurões da mídia, Lady Gagas e maquiagens de divas da música, o Halloween cria um cenário a parte do que estamos habituados. A experiência de andar sob o céu estrelado nesta data provoca o olhar diante da versatilidade de pessoas que são encontradas no caminho. Todas tão diferentes entre si, porém, tão iguais em sua empolgação. O formato pode ser americanizado e importado, funcionando de maneiras distintas conforme a região que o abrange, mas o resultado costuma ser semelhante. Onde quer que você esteja no 31 de Outubro estará cercado por indivíduos desprendidos de si mesmos. Eles deixaram quem são em casa, no armário, e a noite pertence ao descarrego das emoções e fobias guardadas.

A graça de ser aquilo que nos tira o sono, ou de apresentar ao mundo uma nova face, mesmo que efêmera, está aliada ao despertar da coragem, é necessário muita para vagar pelo mundo externo representando um medo ou uma nova interpretação de si mesmos. Talvez a diversão esteja no processo, e não necessariamente no resultado final. Ser corajoso é uma dádiva vinda das etapas e não do instante em que pisamos para fora de casa em nossas fantasias noturnas. Começamos a nos despir da covardia quando passamos o primeiro traço da maquiagem para a festa, ou em que colocamos o látex junto ao rosto para esconder nossas imperfeições, ou até mesmo acentuá-las, afinal, cabe a quem julgar o bonito ou feio quando as bruxas estão à solta?

Todo dia devia ser permitido trocar a veste usual. Melhor: todo dia deveríamos nos permitir ser aquilo que tememos, ou que queremos mostrar. O verdadeiro fantasma não é aquele que surge embaixo da cama no Halloween – é a nossa tendência em se importar demais com os passos que escutamos na madrugada e com os olhares atentos na rua. Fica chato ser sempre igual, então vale transformar uma segunda em sexta-feira, o feio em bonito. Virar ao avesso e mostrar aquilo que tá dentro. No final das contas, o que vale é a travessura e não o doce.

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Delson Neto
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Colunista, escritor, professor e amante da cultura pop. Música, animações e seriados sempre fizeram parte da sua rotina, sendo suas principais fontes de inspiração junto às observações da vida em si.

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