A visão de Anderson Awvas sobre o folclore brasileiro

2015/Anderson Awvas/FOLCLOREBR

O dia do folclore foi oficializado em 1965 no Brasil, mas anteriormente no resto do mundo em 1846, através de uma carta que William John Thoms enviou ao inglês Athenaeum, propondo que qualquer conjunto de tradições populares fosse definido pelo termo “folklore¹”. O país comemora essa data com festas e encenações. Um exemplo seria a do Bumba-meu-boi, que ocorre no Norte/Nordeste do país. Mas quem atualmente ouve falar de Saci-Pererê ou na lenda da Mula-sem-cabeça? Por mais que se tenha comemorações durante o mês, essa riqueza que se tem no país não é tão usufruída assim.

¹De origem inglesa, o termo “folk”, significa povo, já o termo “lore”, cultura – Cultura do povo.

Numa sociedade tecnológica, onde as pessoas passam grande parte do tempo conectadas em seus aparelhos eletrônicos, a famosa conversa “boca a boca” se tornou um grande problema. Com isso, exceto o conteúdo didático apresentado em sala de aula, o Folclore não parece ter a mesma força que antigamente. Diferente do passado, hoje não se tem mais representações desses mitos e lendas em programas televisionados e dificilmente se encontra obras com representações dos mesmos.

O interesse em mitologia grega, egípcia e nórdica ainda atrai a atenção de curiosos, inclusive brasileiros, mas os mesmos parecem se esquecer da própria mitologia. Passada de geração a geração os mitos e lendas foram criados com o intuito de dar um sentido às coisas do mundo que não podiam ser explicados ou até mesmo alertar sobre defeitos dos seres humanos de forma metafórica. Muitos transmitem mensagens importantes, proporcionando uma ampla diversidade cultural.

Porém, fique alerta, pois nem tudo pode ser considerado folclore! O mito/lenda deve ser antigo, popular, ter origem anônima, divulgada por um povo de uma determinada região e o principal: ser transmitida oralmente.

É essa diversidade que o designer e ilustrador Anderson Awvas procura aplicar em um projeto que vem trabalhando. Com “Folclore BR: Uma nova visão”, Awvas procura explorar e reinterpretar os mitos e lendas para um público voltado ao juvenil e ao adulto, criando conceitos e compartilhando-os. O designer visa inspirar a criação de obras que usufruam da nossa cultura e o resultado está se mostrando extremamente positivo, dando-lhe um retorno de milhares de compartilhamentos e novos seguidores que acreditaram e ainda acreditam em sua proposta.

Anderson Awvas é ilustrador com bacharel em design. Fascinado por animações, quadrinhos e literatura de fantasia, possui um vício por artbooks onde está sempre estudando os filmes que gosta. Além do projeto “Folclore BR: Uma nova visão”, ele também é autor dos seus próprios quadrinhos independentes. Entre eles, “A vida de Awvas” e “5 Estágios”. Atualmente trabalha como freelancer na área de ilustração, mas vale ressaltar que o mesmo fez parte do time de criação das cerimônias olímpicas Rio2016 como artista de storyboard. Tem como inspirações situações das quais ele presencia ao seu redor, não tendo apenas uma pessoa como base, já que seus trabalhos são a digestão de um conjunto de coisas.

Numa entrevista exclusiva, Awvas conta mais sobre sua história, sobre seu projeto e suas inspirações:

 

Entrelinhas: Por que da escolha do folclore?

Anderson Awvas: Desde muito tempo sempre vi nesse tema um potencial gigante para trabalhar diversas questões ligadas a formação de uma identidade, pessoal e cultural, que poderia ser explorada de várias formas.

 

Entrelinhas: Já que o assunto são lendas e mitos, qual é a sua favorita? E da sua interpretação, qual seria?

Anderson Awvas: A Yara. É uma lenda que se perpetua em diversas vertentes e que traz muitas questões que envolvem o tempo em que ela é contada. Todas as lendas carregam um pedaço da história antiga e outro do momento atual e por ser uma lenda originada da mistura da sereia europeia com o mito do homem peixe (existente em várias etnias indígenas) e a Yemoja (Iemanjá) da mitologia Yoruba, ela tem algo especial que precisa de muita atenção. E a minha interpretação para ela é o puro amor personificado.

 

Entrelinhas: Qual maior trabalho que você tem na hora de reinterpretar uma lenda/mito?

Anderson Awvas: Buscar as referências certas e estudar as versões já retratadas. Meu trabalho não se resume em simplesmente colocar elas no Google e imaginar em cima do que achei, existe um trabalho de pesquisa que está muito além do que já postei.

Gosto de começar entrando na história com a certeza de que ela é real, mas sempre foi interpretada da maneira que o observador decide passar a história, ou daquilo que ele lembra ou acreditar ter visto.

 

Entrelinhas: O Boto, a Mula-sem-cabeça e até mesmo o Boitatá, são personagens que ainda não apareceram no “Folclore BR”. Podemos esperar que eles apareçam futuramente em histórias próprias ou em aparições secundárias como a da Caipora em Anhangá?

Anderson Awvas: Certamente. O projeto é uma grande provocação ao mercado e a nossa cultura e ainda tem muita coisa no que se trabalhar. Tenho mais 3 adaptações planejadas, mas deixarei para continuar essa provocação no próximo ano com mais uma série de pôsteres provocativos.

 

Entrelinhas: A representação dos cartazes baseando-se em animações de Hollywood, as personagens Yara e Jurubeba, podem e acredito que são críticas para suas devidas questões (consumo de fora, LGBTfobia e o alerta ao risco de extinção do animal). Pode-se esperar mais críticas ao todo do projeto?

Anderson Awvas: Sim, a representatividade negra, indígena, feminina e LGBTQ+ são as principais bandeiras do projeto por que são questões do nosso tempo que precisam de visibilidade. O folclore sempre carrega muito do seu tempo e muitos autores quando vão adaptar esquecem disso e acabam replicando histórias que não precisam mais ser contadas, pelo menos não dessa forma.

 

Entrelinhas: Se você terminasse seu projeto amanhã e estivesse mais do que satisfeito com o resultado final, você optaria mostrar ao mundo através de qual meio? Uma animação (filme), uma série animada, uma saga de livros, uma história em quadrinhos ou um jogo digital? Por quê?

Anderson Awvas: Eu acredito que a transmídia tem um papel fundamental por poder levar obras a vários níveis trabalhando de formas totalmente diversas. Mas, tirando todos os “dependes” de orçamento, tempo e etc., eu começaria preferencialmente em quadrinhos por acreditar ser um material mais fácil de alcançar diversas plataformas e diversos públicos independente de sua questão financeira ao acesso a cinemas, internet ou tecnologia e poderia até ser distribuído em escolas, por exemplo.

 

Entrelinhas: Aproveitando o evento “Folclore BR: Somando visões”, o que você diria para quem está começando agora? (Seja ele um escritor, ou um ilustrador como você).

Anderson Awvas: Primeiramente eu diria para esta pessoa participar do evento de qualquer forma, depois que pesquise e se identifique dentro do seu projeto, mas também faça com que outras pessoas que sejam muito diferentes de você se identifiquem também. O exercício constante de se colocar no lugar do outro te faz perceber o que torna você o que é.

O Brasil é extremamente vasto e temos uma infinidade de possibilidades para explorar artisticamente em todas as mídias. Pense pra dentro da sua cultura e tenha orgulho disso.

 

Entrelinhas: Você já ouviu falar de plataformas para autopublicação, como o Wattpad, por exemplo? Se sim, você considera uma hipótese futura para o projeto “Folclore BR”?

Anderson Awvas: Conheço a plataforma, uso pouco por conta do tempo corrido desde que entrei nela, mas é uma possibilidade sem a menor dúvida. Inclusive, existem muitos trabalhos incríveis sobre o folclore por lá.

 

Entrelinhas: Qual/is são as dificuldades que você acredita que o mercado nacional enfrenta para dar reconhecimento ao seu próprio produto, ao invés dessa aclamação do que vem de fora?

Anderson Awvas: Existe uma dificuldade cultural que é tão estrutural que nem percebemos mais. Temos uma série de problemas sociais, financeiros e tudo mais, mas isso não significa que outros países também não tenham. A dificuldade de planejar algo que só poderá fazer algum efeito daqui a 20 anos é uma cultura só que atrasa a nosso desenvolvimento e alimenta o nosso imediatismo.

Muitos pensam “se não é bom agora, não será nunca”, “se tivesse investimento seria melhor”, “se fosse um país sério…”, mas estes esquecem que fazem parte desse todo e se cada um fizer um pouco dentro da sua área, pensando na estrutura social, em representatividade, com respeito e cuidado, podemos alcançar mudanças significativas. Pode, e vai, demorar, mas não será por um milagre vindo de alguém que não seja você que as coisas vão mudar.

 

Entrelinhas: Você sente falta de representações nacionais no nosso mercado?

Anderson Awvas: Sim, apesar de estarem surgindo bons exemplos como “Irmão do Jorel”, “Historietas Assombradas” e “Além da Lenda”, ainda é pouco! Precisamos investir, comprar mais desse tipo de conteúdo e falar mais disso em todas as mídias.

 

O pontapé inicial do projeto de Arwas, baseado em “Moana: Um mar de aventuras” (2016), Naiá, devota de Jaci (Deusa da Lua), que a traz a vida novamente, após a garota se afogar por cair nos dizeres de um ser misterioso que a prometeu conhecer a divindade. Conhecida agora como Vitória-Régia, ela recebe a missão de descobrir quem é a criatura que a enfeitiçou, junto de sua parceira Jurubeba, uma fêmea de Mico-leão-dourado.

 

Trazendo uma versão extrema de Frozen (2013) e uma superiora ganhando seus poderes. Aiyra, após a visita do fogo fátuo, ela reencontra sua mãe, que lhe cede os poderes de “Mãe d’Ouro”, onde ela precisará salvar o reino dourado escondido dentro de uma caverna, das forças de um ser maligno.

 

Baseando-se no clássico de 1989 da Disney, “A Pequena Sereia”, Yara teve assim sua readaptação para o pôster. Yawara, menino, passa por uma trajetória transformadora ao ser levado pelas correntezas, onde tem seu pedido atendido. Quando acorda, no fundo do mar, ele, ou melhor, ela agora, revela-se ser quem sempre foi e passa a ser chamada de Yara em um lugar onde passa a ser acolhida por todos. Trazendo representatividade para o público, por se tratar de uma personagem trans na visão desse projeto.

 

Sacy, por sua vez, teve seu pôster de origem baseado nas animações “O estranho mundo de Jack” (1993) e “Procurando Nemo” (2003), onde ele é inserido em um mundo sombrio, sem ele ser o sombrio da história. Após ter sua família sequestrada, Sacy vai atrás de ajuda. Ubi, um jovem que cresceu escutando sobre criaturas de uma perna, com gorro e com a capacidade mágica de criar redemoinhos, resolve ajuda-lo e enfrentar seus medos e resgatar sua família de Sacys. Onde se tem como ideia principal, passar a questão de empatia e respeito em entender o ponto de vista do outro.

 

Em uma aventura de amor incondicional e ciclo de vida, Anhangá, ganha seu pôster baseado na animação “Valente” (2012). Trazendo a história de Iwa, um garoto albino com a capacidade de se comunicar com os animais, que certa noite encontra um alce branco, Anhangá. Caipora, que sempre os observava, usa seus poderes mágicos em um determinado momento para tentar salva-los, após uma perseguição, mas Anhangá acaba desaparecendo, deixando apenas seus chifres. Posteriormente, o garoto junto de Caipora procuram entender o distúrbio que causaram no ciclo da vida.

 

O sexto pôster, assim como em “A Origem dos Guardiões”, do qual foi baseado, traz o encontros entre as lendas, após Ubi relatar um pesadelo que acredita ser obra de Jurupari (uma criatura que se alimenta da escuridão da mente). Fechando assim, o primeiro arco.

 

Para conferir as sinopses oficiais e ter acesso a mais informações, entre elas, conceitos e referências sobre a criação das personagens, dê um pulo no Facebook, no Instagram e no site pessoal de Anderson Awvas. Também fique de olho nos seus outros projetos, como Noir 90Pensamentos Malditos5 Estágios, A vida de AwvasAs Aventuras de Bingola e Folclore BR.

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Eduardo Roberto
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Colunista do site Entrelinhas, estudante de Publicidade e Propaganda, é desenhista amador, escritor, nerd/geek, e aos 19 anos é natural de São Paulo.

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