Por dentro da legião de imbecis, segundo Umberto Eco

2016/TELEGRAPH

Estamos todos suscetíveis a sermos contaminados por comportamentos condenáveis, a nivelarmos o debate por baixo, a propagarmos boatos dado a infinidade de conteúdo disponível nas redes sociais.

Umberto Eco, após ter sido laureado com o título doutor honoris causa em comunicação e cultura pela Universidade de Turim, Itália, proferiu a célebre frase: “As mídias sociais deram o direito à fala a uma legião de imbecis”.

Embora alguns a classifiquem como pretensiosa é impossível não se lembrar dela quando lemos a seção de comentários das redes sociais, especialmente em debates acalorados.

Além da habitual e condenável troca de ofensas, vê-se também um emaranhado de desinformação propagada, falta de interpretação de texto, confusões ideológicas, conceitos incompreendidos, imposição de pontos de vista e, em alguns casos mais graves, a exposição inconsciente do próprio analfabetismo funcional — ou ainda, a desonestidade intelectual.

Impressiona a quantidade de opiniões e julgamentos instantâneos produzidos com base no ouvi dizer, e assim se propagam e se moldam os mitos improváveis. Os parcos conhecimentos dos interlocutores não permitem que compreendam que a desinformação também tem a sua utilidade; também é manipulada a fim de atingir um objetivo. São marionetes reproduzindo discursos que não são seus e que não atendem aos seus interesses.

Quando se aventuram a tecer seus próprios comentários o resultado muitas vezes fica aquém do que pode ser considerado razoável. Possuem dificuldade de compreensão, inferem conclusões precipitadas; dividem todo um leque de possibilidades de pontos de vistas em apenas dois polos opostos: comunista ou coxinha, a favor ou contra, direita ou esquerda. Discordar ou questionar um lado te remete imediatamente ao outro. Não há meio termo. São pouco afeitos à divergência, ao contraditório, à empatia, ao debate. Tentam impor seus pontos de vista e praticam proselitismo barato com argumentos superficiais e incoerentes. Quando alguém de boa vontade tenta mediar o debate, ponderando os argumentos de cada lado e se utilizando do bom senso em sua avaliação, é acusado da mesma forma.

Há ainda aqueles que querem demonstrar uma pretensa erudição em seus comentários. Utilizando-se de uma linguagem aparentemente requintada, é muito comum citarem ou atacarem livros e autores que podem sequer ter lido; distorcem conceitos, fazendo malabarismos retóricos com o intuito de utilizá-los na afirmação de seus argumentos; confundem posições ideológicas e, não raro, atribuem a um lado do espectro político práticas que são comumente conhecidas por se caracterizarem do lado oposto. Infelizmente, por demonstrarem certa intimidade com a argumentação e a escrita, acabam produzindo mentiras e reforçando preconceitos, além de conquistar a simpatia dos mais iletrados que contribuem com a propagação de sua duvidosa produção.

Outros ainda ignoram o sábio conselho dos Provérbios capítulo 17, versículo 28 que diz: “Quando calado, o insensato passa por sábio e, se fecha bem a boca, passa por inteligente. ”. São os que, segundo o próprio linguajar da rede, passam vergonha na internet tamanho o absurdo de suas opiniões e o modo como raciocinam e expõe suas ideias. Também segundo um termo difundido na internet, uma nova modalidade de usuário têm se destacado negativamente pelo simples prazer em ofender, humilhar e expor toda sorte de preconceitos, escondidos covardemente atrás de perfis fakes: são os haters.

Porém, nada pior do que aqueles que, valendo-se da sua posição de prestígio ou reconhecida capacidade intelectual, fraudam ou forjam deliberadamente fatos, conceitos e dados históricos a fim de moldá-los da forma que mais lhe convém. É como o advogado que, conhecedor das leis e suas brechas, utiliza-se justamente destas últimas para a prática de ilícitos ou à orientação daqueles que os praticam. Agindo de forma semelhante, o intelectual canalha distorce a realidade, dá subsídios aos incautos, incita o ódio e encoraja revoltas. “As revoluções feitas por intelectuais são sempre muito perigosas.”, dizia o próprio Eco.

O alerta de Umberto Eco — longe de querer pregar que apenas os intelectuais se manifestem ou tenham o direito de opinar, censurando assim os mais simples — propõe que uma certa hierarquia seja observada pelo usuário das mídias sociais na busca de informação sobre determinado assunto: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Estamos todos suscetíveis a sermos contaminados por comportamentos condenáveis, a nivelarmos o debate por baixo, a propagarmos boatos, ainda que estejamos bem intencionados ou de forma inconsciente, dado a infinidade de conteúdo — de qualidade ou não — disponível nas redes sociais. Como nos lembra Eco ainda neste mesmo discurso: “A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar”.

Fica aqui o convite à reflexão sobre qual papel queremos desempenhar nas redes sociais: iremos contribuir para uma internet mais civilizada e livre de boatos, desinformação, propagação de ódio e mentiras?; ou vamos nos irmanar voluntariamente nesta legião de imbecis?

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Felipe Cao
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Aos 31 anos, natural de Jundiaí – São Paulo, é Engenheiro com pós-graduação em Administração de Empresas, dedicando seu tempo livre à família, à música e à revista. Músico e leitor assíduo, procura sempre renovar e ampliar a sua biblioteca particular.

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