Todos os passos para narrar uma boa história: não conte, mostre

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Na literatura há uma máxima que diz “Não conte, mostre”, que traduz uma técnica literária muito utilizada na confecção de histórias. Isto é, diminuir o didatismo da leitura (que, por vezes, torna-se enfadonha e repetitiva) e torná-la muito mais dinâmica. Pode-se dizer, portanto, que a máxima citada é o elemento básico e mais primordial ao se narrar qualquer história, seja em Primeira ou Terceira Pessoa. O leitor se envolve com a obra, acompanha os personagens momento a momento, interage com a ação e se torna, da sua própria maneira, íntimo da obra e até do autor.

A qualidade da narração tem o poder de desconectar o leitor da realidade por alguns instantes. Personagens bem construídos, cenas bem elaboradas e acontecimentos fluidos e originais — todos esses fatores, em conjunto, constituem uma boa obra. Não adianta criar personagens magníficos e depositá-los num enredo fraco, ou desenvolver uma história incrível e pecar no desenvolvimento dos acontecimentos ou na pobreza das características pessoais dos personagens, sejam eles protagonistas ou não.

Quando o escritor peca no desenvolvimento da sua história, o leitor é praticamente empurrado para fora da leitura. E, mesmo que pareça que sim, sustentar a atenção do leitor na trama não é tão complicado quanto parece, afinal já é um grande passo o fato dele estar ali com o seu texto em frente aos olhos, pronto para começar a leitura.

 

Introduzindo a história

A primeira frase do livro deve ser a mais cativante possível. É a partir dela que o leitor decidirá se terminará ou não aquele parágrafo e, depois, se terminará ou não aquela página e daí por diante. É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro e muito rico precisa de esposa — inicia a magnífica obra de Jane Austen, “Orgulho e Preconceito”. Enquanto isso, Machado de Assis opta por iniciar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” com uma dúvida pessoal que, de cara, capta a atenção do leitor:

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar meu nascimento ou a minha morte.

É possível encontrar certas semelhanças também entre autores já consagrados e suas obras icônicas e escritores contemporâneos. Carlos Ruiz Zafón inicia o best-seller “O Jogo do Anjo” com a premissa: Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Moisés Liporage, escritor nacional e roteirista, na sua tragicomédia de horror urbano e recheada de humor negro, começa “O Gato Subiu no Telhado” com a frase: Deitado desconfortavelmente naquele divã duro como a laje de uma tumba, Tony Pasmado começou a contar o último pesadelo que tivera.

Autor nacional contemporâneo, em “Digam a Satã que o recado foi entendido”, Daniel Pellizzari também opta pro frases curtas, iniciando a narrativa de forma sucinta e chamativa: Aí eu penso no sofrimento da jovem mulher feia na Rússia.

Em contrapartida às frases curtas das obras anteriores, Umberto Eco, em “O Cemitério de Praga” (2010), dá uma ideia de quão complexa é a obra, iniciando seu romance histórico com a extensa sentença a seguir:

O passante que naquela manhã cinzenta de maro de 1897 atravessasse por sua conta e risco a place Maubert, ou a Maub, como a chamavam os malfeitores (centro da vida universitária já na Idade Média, quando acolhia a multidão de estudantes que frequentava a Faculdade das Artes no Vicus Stramineus ou rue du Fouarre, e mais tarde local da execução capital de apóstolos do livre-pensamento como Étienne Dolet), se encontraria em um dos poucos lugares de Paris poupado das demolições do barão Haussmann, no meio de um emaranhado de becos malcheirosos, cortados em dois setores pelo curso de Bièvre, que ali ainda se extravasava daquelas vísceras da metrópole, onde fora confinado havia muito tempo, para se lançar febricitante, estertorante e verminoso no Sena muito próximo.

Concluímos, portanto, que a primeira frase do livro representa toda a obra e que, para cativar o leitor, deve-se mostrar a construção daquele mundo dentro da história: o que se vê, o que se sente e/ou o que se faz. O leitor deve ser apresentado ao contexto e ao personagem num começo lento e de poucas expectativas.

É um erro muito comum sair atirando informações sobre o universo da sua história como se o leitor soubesse de tudo, a não ser que, de fato, a história seja complexa do início ao fim, para poucos leitores. Além de causar tédio pode provocar grande confusão. Por isso tudo deve ser diluído, mostrando mais as atitudes e as vidas daqueles personagens naquele contexto do que contando como tudo se é, como uma enciclopédia.

Não é sedutor que a história inteira seja entregue logo de cara, então é importante evitar clichês e principalmente sumários. Ou seja, evitar inserir uma quantidade de informação condensada de forma simplificada, uma cena ou um acontecimento resumido em poucos detalhes.

 

Os personagens

Por falar em personagens, é essencial ressaltar que o protagonista e os demais personagens devem ser conhecidos no decorrer de acontecimentos. Não é necessário dizer, por exemplo, que determinado personagem é preconceituoso, ou que o protagonista é desprovido de ensino escolar. É mais interessante ir inserindo essa característica durante a história, passando a sensação de segurança e de verdade.

Acredite: o leitor perceberá se o seu protagonista é quem você deseja que ele seja.

 

Não escreva apenas palavras. Escreva música.

“Esta frase tem cinco palavras”, começa o texto assinado por Gary Provost, escritor norte-americano. Escreveu livros para jovens, sendo três em companhia da esposa Gail, e livros sobre crimes baseados em fatos reais, como “Fatal Judgement”, de 1988, que serviu como base para o telefilme homônimo.

O fragmento em questão pode ser encontrado no livro “100 Maneiras de Melhorar sua Escrita” (100 Ways To Improve Yout Writing), de 1985, parte dos seis manuais de escrita que Provost publicou no decorrer de sua vida. Possui 10 capítulos curtos onde se fala sobre erros de pontuação e escrita, e discorre métodos para evitar que o leitor caia na insatisfação e, na verdade, seja fisgado desde o começo. A primeira frase do livro indica isso:“Este livro vai ensinar você a escrever bilhetes de sequestro melhores”, e, posteriormente, esclarece que serve para escrever livros, artigos, sermões, canções, trabalhos escolares e listas de compra.

No entanto, há anos compartilha-se nas redes sociais três parágrafos curtos, que têm como título “Varie o comprimento das frases”. É a quarta recomendação do quinto capítulo do livro mencionado anteriormente, no qual Provost explica 10 formas de desenvolver seu estilo.

Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.

Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

Provost também faz dezenas de outros conceitos, abordando clichês, diálogos, citações, personagens e cenários, e um conselho que ele usa é: “escrever é uma arte, não uma ciência, e quando termino um texto não reviso cada um de meus conselhos. Eu me pergunto se comuniquei bem o que queria dizer, se os meus leitores gostaram, se lhes dei algo agradável de ler. Eu os diverti, informei, persuadi ou deixei claras as minhas ideias? Dei a eles o que queriam? E estas são as perguntas que você deveria se fazer sobre tudo o que escrever”.

Portanto, é importante que o momento da passagem do olhar do narrador seja fluido, linear e coerente. Se narramos o cenário de um escritório, podemos iniciar falando sobre a luz incidindo nos móveis, e aproveitar para mencionar a poeira repousada sobre o tampo da mesa no canto, em frente às janelas manchadas. Podemos comentar também sobre as três xícaras de café sobre a mesa e as folhas de papel amassadas ao lado. Aí apresentamos as mínimas características do personagem em questão. Conhecemos suas feições quadradas, o cabelo lotado de gel, o terno amarrotado e assim, de forma bem natural, deduzimos sua personalidade: janelas manchadas, poeira na mesa, roupas amarrotadas, xícaras de café e papéis amassados. Muito provavelmente o personagem está há longas horas num trabalho ou projeto, é alguém solteiro, desleixado, que passa pouco tempo em casa ou, no mínimo, que saiu com pressa naquela manhã.

A boa narrativa conduz o leitor sem deixá-lo perdido; é como uma dança e, as palavras, são música.

 

Verossimilhança

Ainda que você escreva uma história desenvolvida magnificamente através de personagens interessantes, precisa respeitar o universo em que ela se passa. Acidentes podem ocorrer e provocar inconsistências na trama como, por exemplo, imprevisibilidades nas ações de personagens (ou variações abruptas de personalidades), metáforas confusas, fatos que mudam de uma hora para outra sem explicações plausíveis ou vocabulário desajustado ao tempo e ao espaço.

 

Clichês

Existem clichês que são extremamente nocivos e acabam com qualquer livro, pois eles relembram histórias mequetrefes ou comédias/sátiras sem sentido, lotadas de estereótipos e preconceitos, como racismo, machismo, objetificação de mulheres ou desrespeito. Um autor que usa clichês irresponsavelmente empurra o leitor para fora da história; faz com que ele perca a expectativa em relação à história.

 

Fim e revisão

Escreva rapidamente do início ao fim, sem pensar muito em regras de sintaxe ou em revisões, afinal, como disse José Lins do Rego, “os grandes escritores têm a sua língua, os medíocres, a sua gramática”. Isso não quer dizer que é aceitável uma obra lotada de erros de gramática. Na verdade há muitos leitores que abandonam a leitura ao se deparar com esses problemas. O que quer ser dito é que não se deve atrapalhar o processo criativo por detalhes que podem ser alterados ou adicionados numa revisão posterior.

A versão original precisa delinear a história imaginada e é apenas na revisão que se trata de detalhes da gramática e nos preocupamos em tornar a experiência da leitura impactante.

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Fernanda Scheffler
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Diretora administrativa da revista e do site Entrelinhas, carioca, 20 anos, técnica administrativa, estudante de psicologia, professora e escritora apaixonada.

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