RESENHA | Cartas de Amor aos Mortos, de Ava Dellaira

Não contém spoilers.

A única certeza que alguém pode carregar consigo, a verdade universal a velar e cobrir a humanidade, diz respeito a finitude da vida. Morrer é a sina dos vivos.

Mesmo assim, em Cartas de Amor aos Mortos, a adolescente Laurel definitivamente não estava preparada para lidar com a perda prematura da irmã mais velha, May. Toda a lógica por trás da mortalidade humana se tornou insignificante, e em meio ao luto, Laurel tenta compreender por que May a “abandonou”.

A ausência da irmã tão compulsivamente amada pela caçula drena parte da vitalidade de Laurel, e o restante segue em ameaça de ruir, sobretudo pela culpa que ela sente em relação ao ocorrido aMay.

O livro retrata o cotidiano de uma pessoa bastante jovem, mas com a bagagem já repleta de tormentos, e a busca por algo além de remissão: paz.

“May estava aqui e então se foi. Eu a amava com todo o meu coração, e ela morreu. […] Às vezes, estou fazendo algo normal, como ficar parada no beco com meus amigos ou me preparar para dormir, e de repente a saudade surge e quase me derruba.”

A história é contada através de cartas escritas por Laurel, que deveriam ser uma simples atividade escolar, mas, na falta de com quem se abrir — a morte de May criou abismos entre os familiares — e a necessidade de pôr os sentimentos para fora, a adolescente transforma o trabalho da aula de inglês numa espécie de diário.

Os desabafos em forma tão íntima são fundamentais para entender o grau de devastação da personagem, no entanto, há um detalhe muito mais revelador: a quem as cartas são endereçadas. Todas são feitas para celebridades falecidas com históricos tristes e/ou finais trágicos. Um dos “preferidos” de Laurel é nada menos que Kurt Cobain, ex-vocalista da famosa banda de rock Nirvana.

A seleção dos destinatários não acontece por mero acaso; é, de fato, meios encontrados pela autora Ava Dellaira de dissecar melhor a mente de Laurel. Isso porque enquanto a personagem disserta sobre seu dia, sobre seus sentimentos, ela relaciona o histórico das celebridades escolhidas com a própria vida, de certa forma se enxergando um pouco em cada uma delas. Muitas vezes quando fala sobre elas, na verdade Laurel está falando sobre si.

Tal atitude não apenas evidencia quais os reais sentimentos da adolescente, como também traz um mau agouro: será o final dela semelhante ao de Kurt e os outros?

“Às vezes suas músicas dão a impressão de que existia muita coisa dentro de você. Talvez você nem tenha conseguido colocar tudo para fora. Talvez tenha sido por isso que morreu. Como se tivesse implodido.”

O luto de Laurel é alimentado principalmente pela sua obsessão por May. Laurel a tinha como ídolo, um modelo a ser seguido, e esse encantamento pela irmã a impediu de ver o quanto May sofria — assim como, por outro lado, May a superprotegia de tudo, sem notar o quanto a prejudicava também. As duas irmãs guardavam dores particulares. Então, May se foi.

Perdê-la significou para Laurel perder a si mesma. E sendo incapaz de deixá-la viver somente nas memórias, Laurel procura incorporá-la, seja vestindo as roupas de May, seja refletindo sobre qual atitude ela tomaria em determinada situação.

Essa obsessão toda traz um ponto negativo ao texto: faz a trama se arrastar em repetições onde Laurel expressa a vontade de ser igual a May ou fica implícito a extensão de uma na outra. Embora se torne perceptível que o laço que as unia era muito forte, a reafirmação constante desse carinho dá a impressão de que algumas cartas estão ali para fazer volume, sem contribuir realmente com a trama. O desenvolvimento de uma personalidade totalmente própria para Laurel termina sendo um processo lento, o que pode causar desconforto aos leitores.

Contudo, a imaturidade e a crise de identidade apresentada condiz com a fase adolescente, e é o que torna Laurel tão real. Sua insegurança é a mesma insegurança de várias pessoas que enfrentam ou já enfrentaram a mesma fase, sendo apenas agravada pelos traumas vividos.

“Ri alto, empolgada com a pessoa misteriosa que eu poderia me tornar.”

A complexidade humana parece mesmo ser o fio condutor de Dellaira ao escrever o livro. Até os personagens secundários são mais do que detalhes no pano de fundo da protagonista.

Dellaira vai na contramão das narrativas em primeira pessoa que dão ênfase nas camadas do protagonista pelo fato de a trama inteira ser intermediada por ele. Ela se arrisca a criar personagens secundários com os próprios problemas, defeitos e qualidades a serem dissecados, construindo, assim, ótimas subtramas. Subtramas que caminham lado a lado à trama principal, chegando a contribuírem com o amadurecimento de Laurel direta ou diretamente.

Um bom exemplo é a história de Hannah, uma das poucas amigas de Laurel. Hannah talvez seja a mais complexa de todos, é misteriosa, de profundidade oculta. Não há como saber o que esperar dela. E é através dela que Dellaira trabalha de modo completamente orgânico questões ainda consideradas tabu mesmo nos dias atuais, tal qual a homossexualidade.

É também graças a Hannah que Laurel expurga alguns de seus demônios internos, ainda que seja de modo nada ortodoxo.

“Hannah decidiu achar bonito ter hematomas. Ela começou a pintar roxos na maçã do rosto com a sombra de olho. E parecem reais. Natalie diz para ela não fazer isso, mas ama tanto Hannah que só beija os hematomas e diz que vai cuidar deles. Às vezes nosso corpo devia mostrar mais as coisas que nos machucam, as histórias que mantemos escondidas dentro de nós.”

Mas apesar do cuidado em dar voz a quem costuma viver nas sombras, o enredo sempre acaba regressando a Laurel e May, óbvio. O grande enigma por trás do óbito a marcar a história é tratado passo a passo, as dicas são espalhadas aqui e ali, numa subjetividade instigante.A autora jamais usa a palavra suicídio, muito embora fique evidente a necessidade de ajuda da parte de May para seguir adiante.

É outra característica admirável no texto de Dellaira. Ela tem o cuidado de evitar os mínimos gatilhos. Suicídio é uma palavra muito forte.Se fosse utilizada por Laurel, no estado em que a adolescente se encontrava, com certeza teria um tom sedutor — o que não seria bom para Laurel. Para nenhuma Laurel.

Em vez disso, a autora prefere passar a mensagem de não se deixar ser abatido pela dor.

“Muitas coisas não são justas. Acho que podemos ficar bravos para sempre ou simplesmente tentar melhorar o agora.”

Cartas de Amor aos Mortos é uma obra de extrema delicadeza, onde são entrelaçados temas como suicídio, depressão, abuso sexual, violência doméstica, abandono familiar, homofobia, uso de drogas e religiosidade. E mesmo a despeito da carga pesada dos assuntos, a escrita é simples, leve — mas profunda e cheia de sentimentos. A mensagem final é tocante, e precisa ser repassada.

 


INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES SOBRE A OBRA

Título: Cartas de Amor aos Mortos

Autora: Ava Dellaira

Editora: Seguinte

Páginas: 344

Ano: 2014

Sinopse: Tudo começa com uma tarefa para a escola: escreveu uma carta para alguém que já morreu. Logo o caderno de Laurel está repleto de mensagens para Kurt Cobain, Heath Ledger, Judy Garland, Elizabeth Bishop… apesar de ela jamais entregá-las à professora. Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sobre sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky.

Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era — encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um — é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.


IMPORTANTE!

O livro possui também uma bela iniciativa ao informar como contatar organizações onde pessoas que precisem de algum tipo de ajuda possam buscar esse auxílio. Então, se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, entre em contato com uma dessas organizações:

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV)

www.cvv.org.br

Telefone: 141

DISQUE DENÚNCIA NACIONAL DE ABUSO E EXPLORAÇÃO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES (Disque Direitos Humanos)

www.sdh.gov.br/disque100

Telefone: 100

Programa de orientação e atendimento a dependentes (PROAD)

www.proad.unifesp.br

Telefone: (11)55764990

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Elielton Castro
About Elielton Castro 5 Articles
Natural de Belém do Pará, possui 21 anos, é apaixonado por histórias macabras, Edgar Allan Poe; é escritor resenhista nos tempos vagos e sofredor o tempo inteiro.

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