Resenha | Dois mundos, de Aline Camargo

2016/Thais Alves

Objetividade é a palavra-chave que destaca Dois Mundos, fantasia escrita pela autora nacional Aline Camargo. O texto se preocupa em abordar apenas os fatos julgados essenciais para contar a história proposta. Sendo assim, além das subtramas não se distanciarem em nada da trama central, o número de personagens é mínimo — tal qual o espaço para as maiores descrições.

A característica denota uma aposta arriscada, pois o livro pende a quem prefere esse estilo de narrativa. Para quem prefere o oposto, a sensação de que existe algo faltando no texto será uma sombra durante a leitura, o que pode gerar desconforto.

“Existem dois mundos interligados por portais, dois mundos que coexistem. Esses mundos são esse em que vivemos, o mundo dos vivos, e o outro mundo, o mundo dos mortos, espíritos e outros seres.”

Dois Mundos conta a aventura de Themis, Eros e Sofia através de Haesd, o “outro mundo”. Themis e Eros são humanos adultos do mundo “real”, apesar de Themis possuir relação com Haesd. Segundo seu avô, ela é uma guardiã, alguém encarregada de vigiar os portais que separam os mundos. Quanto a Sofia, uma garotinha de 10 anos — mas de mentalidade bastante avançada —, é uma “criança não nascida”: um humano que teve a vida interrompida antes de nascer e, por isso, “nasceu” em Haesd.

Os caminhos dos três se entrelaçam de modo definitivo quando um artefato mágico desaparece em Haesd, o que abala o equilíbrio entre os dois mundos. Daí se inicia um processo de autodestruição, e cabe ao trio interrompê-lo.

Sofia é de longe a personagem mais carismática, sobretudo devido ao seu temperamento. A curiosidade aliada à sagacidade precoce e à falta de paciência traz tons de humor à garota, mesclados ao drama que ela vivencia. Essa combinação funciona bem. Sendo o fio condutor da história, a personagem ser tão convidativa é fundamental para a trama.

Themis é a responsável do grupo, mas sem beirar a chatice. Eros é o passivo, vai aceitando toda e qualquer anormalidade dentro e fora de Haesd por Themis. Também tem um ar adolescente, algo que interfere no modo de enxergá-lo. Eles são menos atraentes que Sofia, porém, não são personagens ruins. No final, a importância de cada um, exatamente como e quem são, torna-se clara.

— “Sempre” é muito tempo, não tem como ter certeza que irá conseguir algo por tanto tempo.

— Então farei com que “sempre” seja apenas o suficiente.

Muito embora o título mencione dois mundos, o foco da história é Haesd. O exterior à ele passa despercebido, até mesmo os efeitos do desequilíbrio porventura causados. O pouco explorado se mostra superficial, não havendo, portanto, uma visão clara do que ocorreu; nem os personagens discutem exatamente sobre os problemas que enfrentam lá.

Haesd, por sua vez, recebe os holofotes. Ainda que no fim permaneça a impressão de que havia muito mais a ser explorado, existe uma noção de como ele é, ou, pelo menos, de como deveria ser antes do pandemônio. Sua concepção é curiosa e atípica, fugindo do que se conhece sobre o Submundo — ou qualquer nome atribuído ao além-túmulo.

A única característica que ambas as realidades dividem é a carência de outros personagens. Qual a melhor forma de conhecer um lugar senão por intermédio de seus habitantes? Mesmo que as figuras surgissem em passagens rápidas poderiam servir para esclarecer algumas questões. Conversar sobre o passado, o presente, oferecer informações, qualquer coisa. Em vez disso o romance assume conceitos de um conto; é possível contar nos dedos quantos personagens compõem a história e a situação se agrava pelo foco demasiado no trio de aventureiros.

Eros e Sofia faziam brincadeiras e se divertiam muito, como se fossem crianças. Eles pareciam não se preocupar com nada mais, ao menos naquele momento. Themis apenas os observava e podia passar toda a noite ali.

Um dos pontos mais interessantes é a ausência de antagonistas. A autora se abstém de definir conceitos de bem e mal. Em sua obra, vê-se somente pessoas dotadas de conflitos internos à procura de um mundo melhor. Suas ações dizem respeito ao momento que vivem, não a quem são de verdade. Julgá-los por um ou outro erro seria precipitar-se, afinal, quem nunca errou ou nunca errará na vida? Há consequências e cabe a quem errou enfrentá-las. É um ensinamento a ser considerado: errar faz parte de ser humano, assim como encarar as consequência dos seus erros.

Um ato ganha vida, desenvolve-se e traz consequências incontroláveis; é impossível imaginar até onde algo te levará. Curioso, não? Você faz algo e não tem o mínimo controle sobre suas consequências.

Para uma estreia no mundo literário, Dois Mundos se revela despretensioso. Alguns recursos clichês do gênero fantasia se acumulam aqui e ali, mas são desenvolvidos de forma instigante. De certa forma, também existe uma “fuga do clichê”. Ela acontece por meio de detalhes ínfimos, como o fato de dois dos três protagonistas serem adultos; ou de detalhes mais significativos, como o conceito por trás de Haesd.

A trajetória proposta, cercada por seus mistérios, é envolvente. Como é dito durante o livro, é principalmente uma jornada de aprendizado. Entre magia, destruição e humanos exercendo a humanidade em si, o leitor é induzido a olhar para o próprio interior e procurar saber quem realmente é e quais são as consequências geradas pelo simples fato de ser essa pessoa.

A resposta pode mudar tudo a partir de então.


INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES SOBRE A OBRA

Título: Dois Mundos

Autora: Aline D. A. Camargo

Editora: Infinito Editorial

Páginas: 186

Ano: 2016

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Elielton Castro
About Elielton Castro 7 Articles

Natural de Belém do Pará, possui 21 anos, é apaixonado por histórias macabras, Edgar Allan Poe; é escritor resenhista nos tempos vagos e sofredor em tempo integral.

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