RESENHA | Ultra Carnem, de Cesar Bravo

“Na disputa entre o céu e o inferno nós somos o prato principal.”

Em âmbito nacional, o terror ainda é muitas vezes posto de lado, seja na literatura ou não. Entretanto, a despeito do “descaso” para com o gênero no país, alguns autores brasileiros estão fazendo a diferença. Dentre eles, está Cesar Bravo. Com Ultra Carnem, Bravo apresenta toda a sua falta de inibição em explorar as entranhas do terror.

Além de um enredo original tão meticulosamente construído quanto arrepiante, Ultra Carnem possui uma arte visual de abismar qualquer um. O conjunto da obra atrai os olhos, a curiosidade, e ambiciona a alma.

 

 

A obra é dividida em quatro partes e um epílogo, sendo eles, respectivamente: O Abandono; Gênesis; O Pagamento; O Inferno; Os Três Reinos. Todas se unem para contar através de tramas distintas uma única história. Seus personagens são, em maioria, a síntese do que existe de pior na humanidade. Logo, não é apenas com o terror sobrenatural que os leitores lidarão: a atrocidade humana também estará ali para assombrá-los.

 

“— Como pode fazer isso comigo? O que pretende? Eu te amo, meu filho! […]

— Eu sei. E ele também me ama. — O menino apontou para o demônio que caminhava de volta para suas fileiras.”

 

Em O Abandono, é retratada a história de Wladimir Lester, menino cigano execrado pelo próprio povo. Ele é abandonado no orfanato administrado pelo padre Giordano, sob o aviso de que algo maligno habita em seu interior. Sua chegada na instituição, obviamente, liberta horrores inimagináveis.

 

“— Garanto que ele enxerga coisas que eu e você jamais sonharíamos em ver.”

 

Crianças malignas são elementos assustadores primorosos no universo do terror. Contudo, não basta apenas desconstruir a inocência pré-estabelecida a elas pelos outros com atitudes maléficas, sanguinárias. Para “convencer”, é necessário trabalhar os detalhes, as minucias.

Esse trabalho é visto desde o princípio em Wladimir Lester. A obscuridade do garoto é transcendente à carne, sendo perceptível até nos gestos mais simples. Em vez de o autor recorrer ao mistério a respeito da natureza do menino para gerar suspense, Bravo investe num jogo mais audacioso: a apreensão gira em torno de quando Lester mostrará quão realmente nocivo é.

Para os fãs do tema de atividade paranormal/demoníaca, alguns momentos da narrativa podem parecer clichês. Já outros são de uma originalidade admirável, sobretudo quando é atingido o ápice dessa primeira parte da história.

 

 

Em Gênesis, a partir de um longo salto temporal, é visto o legado de Wladimir Lester no meio oculto: o menino se tornou uma lenda! O protagonista agora é Nôa, pintor fracassado sem inspiração restante para suas telas. Ele investiga o passado de Lester à procura de salvação, porém, cada passo nessa jornada o aproxima da perdição.

 

“O destino parece ter um plano traçado para todos, mas para alguns, tudo o que existe é um enorme ponto de interrogação. Um desses casos encontrava morada no corpo de um homem chamado Nôa D’Nor.”

 

Diferente da trama anterior, o ritmo de Gênesis é menos empolgante. O enredo desperta a curiosidade, mas se desenvolve de maneira demorada. O que realmente instiga a prosseguir é o fato de se descobrir mais quem era Wladimir Lester e o que houve com o pequeno cigano após o orfanato.

 

 

As partes seguintes são bem mais autossuficientes no sentido de se distanciarem do “mito Wladimir Lester”. O Pagamento é o que mais se afasta dele. O enredo foca na transformação da vida de Marcos Cantão através de um desejo realizado perante uma estátua mística. As bênçãos, como é de se esperar, escondem verdadeiras maldições.

A personalidade do protagonista é angustiante, acima de tudo o jeito como ele enxerga e trata as mulheres. O machismo é tão fortemente impregnado em Marcos que muito provavelmente deixará vários leitores desconfortáveis.

Outro fator “difícil” — para quem for sensível — de lidar é o gore da trama. A atrocidade humana assume as rédeas e ultrapassa o teor macabro de qualquer terror sobrenatural.

 

“— Essa aqui é a Ciganinha — disse Sofia, já perto da estatueta. Ela se aproximou com muita reverência, parecia ter muito respeito por aquela coisinha de gesso. Ou quem sabe fosse medo.”

 

O Inferno, por outro lado, conecta de forma mais íntima tramas anteriores. Quando a garçonete Lucrécia Trindade, mulher de passado sofrido e presente entediante, decide ouvir sorrateiramente a conversa suspeita de alguns clientes da lanchonete na qual trabalha, o inferno se revela para a humana.

Agora o terror é o mesclar de tudo o que já foi explorado até então. A reviravolta se concentra na própria Lucrécia, e conduz um dos enredos mais inesperados.

 

“Quando a porta às suas costas se fechou, Lucrécia viu-se de frente para um enorme corredor, com paredes feitas de rocha. O teto era alto e feito de cimento, havia luminárias fluorescentes chiando, algumas piscavam sem parar. Lucrécia também notou escavações nas rochas. Dentro delas, corpos humanos cinzentos pareciam hibernar a cada três, quatro metros.”   

 

Por fim, Os Três Reinos finaliza a obra. Em pouquíssimas páginas, o saldo das quatro partes relatadas é destilado.

 

“Havia alguém ali. A figura conseguia ser mais negra que a noite. Era alta, ocupava toda a altura do vão da porta. A coisa também tinha olhos. Eram intensos, brilhavam como brasa.”

 

É provável que a estrutura fragmentada da histórias possa gerar receio de início, mas, entre desfechos sangrentos, humanos desprezíveis e planos satânicos, a leitura termina sendo bastante prazerosa para quem aprecia um bom terror. Ele emana das palavras, das figuras, do livro em si. E com certeza tomba o preconceito contra autores nacionais.

A criatividade de Cesar Bravo é o ponto alto! Não só quanto a reinvenção do que já é conhecido, como também à introdução de novidades surpreendentes. Esquecer alguns personagens — e seus feitos — depois de conhecê-los será uma tarefa árdua.

Existem, evidentemente, uma série de pequenas falhas, igual a qualquer outra obra. A mais grave é a perpetuação de estereótipos cuja época não “permite” mais. Ainda assim, Ultra Carnem continua tendo seu valor. Para o gênero, é um deleite!

 

 

 

 


 

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES SOBRE A OBRA

Título: Ultra Carnem

Autora: Cesar Bravo

Editora: DarkSide

Páginas: 384

Ano: 2016

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Elielton Castro
About Elielton Castro 5 Articles
Natural de Belém do Pará, possui 21 anos, é apaixonado por histórias macabras, Edgar Allan Poe; é escritor resenhista nos tempos vagos e sofredor o tempo inteiro.

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