Resenha | Vítimas do Silêncio, de Janethe Fontes

2008/Janethe Fontes/UNIVERSODOSLIVROS

“Vítimas do Silêncio” é uma verdadeira história de superação. Não há como deixar de mergulhar de cabeça na trajetória da protagonista e torcer para que ela consiga se reconstruir após ser brutalmente despedaçada.

A trama tem início em julho de 1988 quando a jovem Margarida Esteves, violada pelo padrasto, procura refúgio na casa de parentes distantes. Embora esconda o real motivo para estar ali, ela é acolhida pelos familiares. No entanto, uma série de infortúnios ao longo dos meses subsequentes a levam a mudar de cidade outra vez. Agora sozinha em São Paulo, Margarida busca forças de fontes que nem mesmo ela conhece a fim de se restabelecer novamente.

“[…] a única certa certeza que seu coração tinha, naquele momento, era a de que precisava partir e encontrar um refúgio, até que um dia pudesse voltar para casa”.

Abordar o abuso sexual é uma tarefa bastante delicada, afinal, a natureza do tema é nociva por si só. É necessário haver a consciência de que de uma forma ou de outra as pessoas serão atingidas pelo conteúdo — algumas, pessoalmente. Sendo assim é muito importante saber até aonde ir. E eis o ponto no qual Janethe Fontes se sobressai. Os episódios de abuso são retratados em breves parágrafos e de maneira cuidadosa para com o leitor, sem nenhuma intenção de “apenas chocar”, ainda que seu teor sórdido seja mantido — algo impossível de extrair. O foco principal gira em torno das consequências do ato no psicológico das personagens, sobretudo no da protagonista.

A autora explora bem os efeitos desta violência na vítima. Vê-se, por exemplo, a culpa que Margarida atribui a si própria na crença errônea de que alguma atitude sua tenha contribuído para o acontecimento do assédio. Ela não compreende que o culpado é apenas o agressor, e por isso procura controlar o modo de se vestir, de se comportar. Além disso, guardar o tormento vivido unicamente consigo mesma. A vergonha, a humilhação do abuso a silencia.

Conforme o tempo passa, presencia-se outros ecos do trauma na vida de Margarida, como o receio de ficar sozinha na presença de um homem — ainda que seja o primo amado — ou o receio de manter relações sexuais. São pequenas passagens com significado gigantesco, pois exprimem o sofrimento contínuo da personagem.

Outro grande conflito de Margarida é a saudade da mãe, Magnólia, e da meia-irmã, Suzane. Ela jamais quis deixá-las para trás, porém, viu-se forçada a isso quando a mãe se demonstrou inteiramente cega em relação ao que vinha ocorrendo bem debaixo do seu nariz. A ausência dessas duas pessoas tão importantes para Margarida pesa no seu cotidiano, mas colide com o pavor de retornar para casa onde o padrasto segue a vida como se nada houvesse acontecido.

Margarida também teme pela meia-irmã, obviamente. Ela se força a acreditar que o padrasto seria incapaz de violentar a própria filha, contudo, o temor pulsa em seu peito o tempo inteiro. Assim, Margarida nunca consegue se restabelecer por completo porque sempre há algo puxando-a de novo para os fantasmas do passado.

Então Janethe surpreende o leitor. Apesar da carga dramática do texto, a autora insere na história determinados elementos a fim de torná-la menos pesada. Um ótimo exemplo é o relacionamento entre Margarida e William, advogado profundamente deprimido desde quando sofrera um acidente que o deixou paraplégico.

A aproximação do par é construída de maneira bastante orgânica: ocorre no decorrer de vários saltos temporais. Janethe respeita os traumas e as inseguranças de cada personagem, enquanto aproveita para abordar outros temas encaixados sutilmente na trama principal, dentre eles, a dificuldade de os estudantes brasileiros sem condições financeiras conquistarem uma formação acadêmica. Essa carência social é expressada pela própria Margarida durante sua busca por ascensão na vida através dos estudos. Também são abordadas questões de saúde, fé e política.

Deste modo, o saldo final é um enredo brilhante que trafega entre o suspense, o romance, a aventura e o mistério. A transformação de Margarida de uma adolescente traumatizada para uma mulher enfim realizada (pela própria força de vontade — importante ressaltar) é totalmente inspiradora. A mensagem do livro é muito importante, acima de tudo para as vítimas de abuso sexual: a superação do trauma é possível e irromper o silêncio é o passo fundamental.

“Espero, do fundo do coração, que um dia tanto homens quanto MULHERES sejam respeitados como seres humanos providos de desejo, de vontades próprias e não sejam mais submetidos a humilhações e violências descabidas como o estupro e outro…

… Esse é apenas um “grito de alerta” para quebrar o “silêncio” que paira sobre mulheres no mundo todo, que por medo ou vergonha são “vítimas do próprio silêncio”. — Nota introdutória da autora.


INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES SOBRE A OBRA

Título: Vítimas do Silêncio

Autora: Janethe Fontes

Editora: Universo dos Livros

Páginas: 187

Ano: 2009

Sinopse: Uma garota é vítima de estupro e tenta reconstruir sua vida. Porém, o criminoso está mais perto do que poderia imaginar e continua perseguindo pessoas que ela jamais gostaria de ver envolvidas nessa história. Quando finalmente acredita ter encontrado o caminho da felicidade e esquecido aquela época tão difícil, o passado volta para acertar as contas e ela só tem uma alternativa: encontrar o criminoso antes que ele faça outras vítimas.

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Elielton Castro
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Natural de Belém do Pará, possui 21 anos, é apaixonado por histórias macabras, Edgar Allan Poe; é escritor resenhista nos tempos vagos e sofredor em tempo integral.

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