Vale a pena ver? | Death Note (2017)

Criador do original diz que remake da Netflix é “uma obra-prima”, mas a crítica e o público discordam... 2017/Pôster de divulgação/NETFLIX

Death Note é um mangá lançado pela Jump criada por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Fez um enorme sucesso no começo dos anos 2000 e faz ainda hoje, quase duas décadas depois, tornando-se um ícone entre todas as animações japonesas. A obra conquistou uma legião de fãs por todo o mundo graças à trama bem elaborada, inteligente e envolvente.

O anime conta a história do brilhante estudante Light Yagami que vê, da janela da sala de aula, um misterioso caderno cair no jardim. Curioso, Light capta o caderno e tem contato com seu dono, Ryuk, um deus da morte (shinigami) que, entediado no mundo em que vive, decide se divertir no mundo dos humanos. Ryuk revela que o caderno nas mãos de Light é um Death Note e qualquer humano que tivesse seu nome escrito nele morreria.

Assim sendo, Light, um jovem com senso de justiça distorcido e imperativo, usa o caderno com o objetivo de exterminar o mal na humanidade e criar um novo mundo. Assim, ele desenvolve o heterônimo Kira, utilizando suas próprias vítimas para divulgá-lo como salvador e, assim, ser adorado como um deus.

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No entanto, com a onda crescente de mortes misteriosas de criminosos e o nome de Kira se espalhando pelo mundo, L, conhecido como o maior detetive do mundo, aparece. Dessa forma se inicia uma caçada entre o detetive e o assassino.

Tanto o mangá quanto o anime iniciam de maneira magnífica e surpreendem a cada instante no decorrer da trama. Não há recorrência a clichês nocivos ou plot-twists apelativos. Há reviravoltas quando menos se espera e a genialidade passa uma sensação de verossimilhança inarredável, apesar dos elementos sobrenaturais inseridos. Além disso, o anime consegue provocar reflexões profundas episódio a episódio. Uma das maiores lições que podemos tirar da história é que não existe bem ou mal, pois é justamente essa obsessão em exterminar o mal que Light mostra ser um jovem egoísta e cruel. Há fundamentalmente em Death Note uma discussão sobre justiça, incluindo pena de morte, tortura, etc.

Alguns anos após o sucesso do anime, Death Note foi adaptado em live-action para o mercado japonês. Porém, nenhum dos filmes adaptados foi tão aguardado quanto o longa anunciado pela Netflix, que trouxe o anime a um público diferente e maior. Comprometeu-se a ser uma releitura da obra original, mas atuou como adaptação e requereu desprendimento total por parte dos fãs do anime. Ou seja, Death Note ousou contar uma história alternativa ao mangá/anime.

A adaptação contou a história de Light Turner, filho de um policial e jovem amargurado que perdeu a mãe recentemente. Ele encontra o Death Note como presente de um deus da morte e junta-se a Mia, uma líder de torcida que, assim como ele, vê o mundo como um lugar podre. Assim eles se unem para limpar a humanidade de todo o mal.

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Embora conte com a direção de Adam Wingard (diretor de “A Bruxa de Blair”) e um elenco estrelado por Nat Wolff (Light), Margaret Qualley (Mia), Lakeith Stanfield (L) e Willem Dafoe (Ryuk), Death Note, lançado pela Netflix em agosto de 2017, obteve apenas 33% de aprovação Rotten Tomatoes, o que é muito abaixo do esperado, e a crítica massacrou o longa, apontando um viés piegas na narrativa e execução pobre do material original que, como dito anteriormente, é riquíssimo.

Nas palavras dos críticos:

“Cafona, estúpido, enrolado e ridículo. No lado positivo, se seus globos oculares precisam de um revigorante exercício, esse filme os fará rolar sem parar”. – Inkoo Kang, TheWrap.

“Endiabradamente sangrento, com um senso de humor macabro”. – Fred Topel, We Live Entertainment.

“Uma bagunça incoerente de tons e estilos, personagens com motivações confusas e narrativas turvas”. – Gary Garrison, The Playlist.

O filme é classificado “para maiores” justificando as ridículas cenas de mortes gore e todo o sangue envolvido. Exemplo do apelo foi a morte de um dos personagens que praticamente explode no momento em que um caminhão o atropela. Podemos ver a mesma coisa acontecer quando, numa situação semelhante, um jovem é decepado por uma escada presa ao teto de um carro.

Em relação a personalidade marcante e megalomaníaca de Kira, vemos sua sede por justiça se perder completamente na adaptação da Netflix. Enquanto no anime acompanhamos um jovem genial e obcecado por poder, no filme somos apresentamos a um adolescente transtornado, vingativo, mimado e confuso, e vemos traços de sua inteligência apenas nos instantes finais, o que não é o bastante para salvar o personagem.

Aparentemente a cobiça, a obsessão e o desejo de Light em se tornar um deus do novo mundo foram elementos transferidos a Mia, versão alternativa da Misa do anime. Enquanto Misa é uma personagem cega de amor, sujeita aos mandos e desmandos de Kira, a quem venera, Mia faz o papel de uma adolescente de sangue frio e mostra que é capaz de tudo para limpar o mundo de todo o mal, inclusive fazer mal ao próprio Light.

Lakeith Stanfield mostrou capacidade de interpretar o L original, que é tido como um gênio a la Sherlock por suas deduções brilhantes e surpreendentemente exatas. Porém, na adaptação o personagem também deixa a desejar. Alguns elementos cruciais foram mantidos do anime à adaptação, como a compulsão por doces e a maneira alternativa de andar e se sentar, mas L se mostra diversas vezes carregado de sentimentalismo e os traços da sua genialidade se perdem junto com os de Light, algo que no enredo original lhe oferece o título de melhor detetive do mundo.

A interpretação de Willem Dafoe como Ryuk segue as expectativas do público, mas sua presença não é capaz de salvar o enredo. O shinigami se converte em um demônio sombrio na adaptação de Wingard e perde todo o charme que tinha na versão original, mostrando-se como sádico insosso. Além disso, sua falta de relevância no decorrer da trama é outro ponto incômodo, pois na adaptação Ryuk tira toda a autoridade de Light e é capaz de tentar desanimá-lo muitas vezes, ao contrário do original onde o shinigami assiste e comparece fundamentalmente a tudo o que Light faz com o caderno.

Ainda que não comparemos a adaptação com o anime, desprendendo-nos completamente do enredo original, conseguimos observar falhas individuais na obra, principalmente no que diz respeito aos personagens e a fluidez dos acontecimentos. Por exemplo, não parece haver, de fato, motivos para que L desconfiasse que Light fosse o Kira, pois ele mostra que é apenas um adolescente comum. Qualley como Mia tem expressão e emoção novelística, de forma que sua atuação poderia ser comparada a de Kristen Steward em “Crepúsculo”. Da mesma maneira, a personalidade de L não faz jus ao título de melhor detetive do mundo, o que decepciona o expectador.

A trilha sonora também é outro elemento que deixa a desejar. Não há excitação em momento nenhum e a música de fundo não passa o que a cena mostra, criando incômodos e até inconsistências.

Embora as comparações entre o original e o filme ressaltem seu fracasso, é importante lembrar que suprimir 37 episódios em 100 minutos é uma tarefa complicada. O filme perdeu a chance de trabalhar diversas abordagens e, embora diversos elementos pudessem ter sido desenvolvidos de maneira mais adequada, Wingard busca trabalhar as outras questões do anime nos diálogos entre os personagens. É inegável o esforço do diretor em se manter fiel ao original, de alguma maneira.

Apesar da riqueza de toda a história de Death Note, a adaptação pode ser considerada um filme mediano aos que não assistiram o anime e um filme ruim aos que assistiram. Adam Wingard não consegue sustentar o enredo apesar do notável esforço, criando um filme que lembra, em muitos momentos, “Premonição” com personagens saídos de “Crepúsculo”. A adaptação abandonou a estética gótica do original e foi substituída por uma fotografia diferente, onde o cenário sombrio e pesado é contrastado com uma luz e cor mais forte, cumprindo, por esse e outros diversos motivos, o papel de filme genérico para adolescentes.


FICHA

Título: Death Note

Gênero: Terror, suspense

Duração: 1h41min

Ano: 2017

Sinopse: Um estudante do ensino médio encontra um caderno sobrenatural e percebe que nele existe um grande poder: se o proprietário escrever o nome de alguém enquanto estiver pensando em seu rosto, a pessoa morrerá. Embriagado por sua nova habilidade divina, o jovem começa a matar aqueles que julga indignos a viver.

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Fernanda Scheffler
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Diretora administrativa da revista e do site Entrelinhas, carioca, 20 anos, técnica administrativa, estudante de psicologia, professora e escritora apaixonada.

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