Ferreira Gullar e apenas 5 dos seus melhores poemas

Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros.

Ferreira Gullar foi um poeta maranhense, crítico de arte, tradutor e ensaísta. Foi o quarto dos 11 filhos de Newton Ferreira e Alzira Goulart, nascendo no dia 10 de setembro de 1930 na cidade de São Luiz. E lá foi onde se descobriu poeta, tendo como influência poetas como Gonçalves Dias e Olavo Bilac.

Gullar considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira. Sua poesia sempre se destacou devido ao engajamento político e social. Utilizava a palavra como um instrumento de denúncia e crítica, especialmente durante o período de regência militar, onde foi perseguido e, portanto, exilou-se na Argentina durante a repressão.

Em entrevista ao jornal Globo em 2015, um ano antes do seu falecimento, ele lembrou da sua primeira experiência pessoal com o poeta Manuel Sobrinho e do seu espanto ao ver que o mesmo havia se interessado pelos versos do jovem.

— Eu achava que todos os poetas estavam mortos, mas descobri que São Luís estava cheia deles. O modernismo de 1922 só chegou ao Maranhão no fim dos anos 1940. Quando comecei a ler os modernos, minha visão da poesia mudou completamente e senti que não podia mais ficar em São Luís.

A importância da poesia de Gullar foi reconhecida apenas tardiamente, no final da década de 90, quando recebeu o prêmio Camões, um dos mais importantes prêmios literários brasileiros. Aos 84 anos, em 2014, tornou-se imortal pela Academia Brasileira de Letras e nas palavras eternizadas nos seus milhares de exemplares vendidos.

Num encontro com a poetisa e atriz Elisa Lucinda, Gullar profere uma das suas frases mais famosas, e reflete com perfeição a natureza da sua poesia:

— A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida.

Abaixo, em “Poema Sujo”, um dos seus poemas mais conhecidos, Gullar choca e provoca a admiração que atém seus leitores aos versos:

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

[…]

“Traduzir-se” é um poema que foi publicado pela primeira vez em 1980 no livro Na Vertigem do Dia. Nele o autor trata do intimismo, de incertezas e inquietações:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

“Não há vagas”, de 1963, é um poema metalinguístico que se refere à atemporalidade da poesia que se fecha no cotidiano. Discute-se o fazer poético e seu sentido — para quê e para quem:

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

De conteúdo transgressor e, tal como outros poemas de Gullar, crítico e engajado, “Subversiva”, fala sobre a necessidade da arte de batalhar, e não se apenas ser:

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país.

O poema “Aprendizado” é, apesar da linguagem mais formal, critica a sociedade num todo. Fala sobre a necessidade de preparo que todos precisamos possuir para os sofrimentos que consequentemente virão depois das alegrias e vice-versa:

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

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Fernanda Scheffler
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Diretora administrativa da revista e do site Entrelinhas, carioca, 20 anos, técnica administrativa, estudante de psicologia, professora e escritora apaixonada.