O Holocausto nos quadrinhos

1986/Art Spiegelman/MAUS

O Holocausto permaneceu intocável durante muito tempo e até hoje o assunto é tratado como tabu em determinados lugares por vias políticas e culturais.  O acontecimento provocado na Segunda Guerra Mundial pelos Nazistas demorou para ser refletido na artes.  No entanto, no que diz respeito à sétima arte, por exemplo, hoje temos ficções de base como A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, propostas com pegadas humorísticas como A Vida É Bela, de Roberto Benigni, clássicos como O Grande Ditador, de Charles Chaplin (que, embora não mencione o Holocausto devido à falta de informação sobre o mesmo, na época, mostra a perseguição aos judeus), e documentários como Eu Fui a Secretária de Hitler, por André Heller. Na literatura temos O Diário de Anne Frank e O Menino do Pijama Listrado, e nomes como Paul Celan e Imre Kertész – homens que sabiam do que estavam falando, pois estiveram nos campos da morte. No teatro o tema também foi abordado na peça Cinzas às Cinzas, de Harold Pinter. E também na música, Shostakovich transformou a tragédia em partituras.

Um universo relativamente novo em que o Holocausto, em si, é refletido, é no mundo dos quadrinhos. Maus, de Art Spiegelman, Segredo de Família, de Eric Heuvel e Adolf, de Osamu Tezuka, são destaques nesse novo universo.

 Publicado em 1986, Mausgraphic novel de único volume de Art Spiegelman, é um dos relatos mais inusitados dos horrores provocados entre 1933 e 1945. Em preto e branco, representa os judeus como ratos, os poloneses como porcos e os nazistas como gatos. Começou a ser publicado em 1980 através de capítulos na revista Underground Raw, que o próprio Spiegelman havia fundado.

Maus foi essencial para que os quadrinhos como gênero ganhassem mais respeito. Ainda assim, alguns anos depois, o álbum Hitler = SS, de 1989, do francês Philippe Vuillemin foi proibido por ofensa às vítimas. Vuillemin foi condenado a pagar um franco como quantia simbólica pelo ato e o álbum foi apreendido na Espanha.

É importante lembrar que antes da década de 80 outras HQS retrataram o Holocausto, com menos notoriedade, tal como Master Race (1955), de Bernard Krigstein e Al Feldstein, que retrata um encontro de um sobrevivente do Holocausto e seu torturador em um vagão do metrô de Nova York.

Segredos de Família, de Eric Heuvel, mostra através de confissões de uma avó para o neto, a infância de quem cresceu durante a ocupação alemã da Holanda. A história é fictícia, mas acompanha de maneira intensa os relatos de uma jovem que tem a família dividida entre colaboradores e opositores do regime nazista.

Quase que consecutivamente à Maus, o mangá de Osamu Tezuka é lançado no Japão: Adolf. O autor imagina acontecimentos que antecedem o regime nazista. Acompanha cinco volumes e três personagens, entre eles, o próprio Adolf Hitler.

A Segunda Guerra e o Holocausto é um período da história que nunca parou de ser investigado desde seu fim. O primeiro livro sobre o assunto foi publicado em 1947 por Hugh Trevor Roper, e retrata o suicídio de Hitler. O horror foi brutal e os crimes cometidos foram profundos de forma que, ainda que estudemos por décadas os resultados e as razões que antecederam, nunca conseguiremos ter uma ideia concreta das atrocidades realizadas, mas podemos evitar que elas venham a se repetir. Para tanto é essencial que a literatura, o cinema, a poesia, a música e, inclusive, os mangás e HQS, façam parte em conjunto e sejam meios que nos liguem à esse período histórico e nos permitam assistir os acontecimentos de forma que venhamos a nos tornar impedidores de tragédias.

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Fernanda Scheffler
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Diretora administrativa da revista e do site Entrelinhas, carioca, 20 anos, técnica administrativa, estudante de psicologia, professora e escritora apaixonada.