Resenha | Estrela da Manhã, de André Vianco

Estrela da Manhã conta a história de Rafael, um menino frágil e sensível que sofre perseguição de um grupo de valentões e, perdido, busca encontrar na internet tutoriais de rituais para reencontrar seu pai morto... Elielton Castro/2018

Que a verdade seja dita, a ideia de contratar demônios por meio de um aplicativo é completamente bizarra! E não “bizarra” no sentido esperado de uma obra voltada ao terror feito Estrela da Manhã. Afinal, a questão é literalmente baixar um demônio pelo celular. Quem em sã consciência pensaria ou daria crédito a algo assim?

A proposta elaborada por André Vianco gera dúvidas de início, dúvidas que podem ser o melhor marketing-pessoal do livro. Quem não se sentir instigado pelo trabalho visual da capa e/ou pela sinopse, talvez se sinta desafiado a conferir a seriedade da história, mesmo tendo o mero intuito de posteriormente criticá-la com propriedade.

Antes de assumir teor caótico, a vida do protagonista pré-adolescente traz problemas banalizados pela maioria de quem o cerca. Rafael sofre bullying na escola, havendo tanto agressão verbal quanto física ao longo do seu dia a dia. Para piorar a situação, o principal agressor é filho de gente importante na cidade, ou seja, até quem enxerga o sofrimento de Rafael prefere se manter em silêncio a fim de não trazer incômodos a si próprio. Dentre essas pessoas, está a mãe de Rafael, a professora dele e a diretora da escola. Já o irmão, ele acredita que o caçula deve “ser homem” e combater violência com violência — pensamento pouco surpreendente da sua parte, pois ele também agride Rafael sem grandes motivos. O pai, o único a realmente cuidar de Rafael, morreu anos atrás.

No fim das contas, ele só conta com o apoio da melhor amiga, Renata. Mas Renata não passa de outra criança. Sendo assim, Rafael busca meios menos convencionais de resolver seus problemas: procura ajuda na internet. No processo, encontra a bizarra salvação, aquela que mais tarde torna-se a sua perdição.

“Somente hoje, por menos da metade do preço, você poderá ter o Estrela da Manhã a seu serviço. Três vezes sem juros, de 99,90! Aceitamos todos os cartões de crédito! Oferta exclusiva Pé na Tumba.”

A história soa absurda a partir da contratação do demônio. O autor constrói passo a passo do processo, dando a impressão de estar lidando com um serviço qualquer cada vez menos incomum como chamar um Uber, na busca de veracidade. É difícil deixar de considerar cômica a situação.

No entanto, é necessário mudar a perspectiva com a qual a analisa.

Ao levar em conta os tempos atuais, a intenção de André Vianco com Estrela da Manhã parece ser justamente satirizar a praticidade trazida pelos avanços tecnológicos do século XXI, onde o acesso a incontáveis serviços está todo guardado em um smartphone. E, possuindo a natureza de sua escrita voltada para o terror, a sátira de Vianco não poderia deixar de ser macabra.

“— Você está aqui, Estrela da Manhã?

Rafael olhou para os lados, sentindo a pele esfriar ainda mais. A sensação de estar encarcerado dentro de uma câmara frigorífica era como ter sua pergunta positivamente. Mas ele precisava saber. Precisava ver com os próprios olhos.”

A escolha da faixa-etária do protagonista e o tema social em pauta são pertinentes para a construção crível do enredo. O bullying serve de paradoxo em relação ao avanço da mente humana, pois muitos ainda o consideram “coisa da idade”. A negligência apresentada a respeito do tormento vivido por Rafael é o reflexo do que ocorre na sociedade. O problema muitas vezes não é visto como problema até se transformar em tragédia.

Rafael vira uma bomba-relógio. Ele precisa somente de um empurrãozinho. E aí encontra-se outra possível crítica de Vianco a algo do atual cotidiano: o acesso de crianças a conteúdos expostos na internet sem o acompanhamento de responsáveis. A mãe de Rafael preocupa-se em trabalhar para manter a casa, e termina pondo de lado seu papel de ser uma guia para o filho. Abandonado à própria sorte em caminhos de infinitas possibilidades, não é à toa que a mente de 12 anos do menino se agarre à primeira solução eficaz a surgir, independentemente do preço a se pagar por ela.

Mesclar tal realidade com o sobrenatural foi uma sábia decisão. Da literatura ao cinema, o sobrenatural, sobretudo aquele restringido à atividade demoníaca, está em alta. Por mais assustador que seja, quem não gosta de arriscar-se em entretenimentos dessa natureza de vez em quando? O assunto em si é convidativo.

Por isso Estrela da Manhã é uma boa opção de leitura. O entretenimento é garantido.

Longe de falhas, a trama possui alguns reveses como o ritmo lento dos capítulos iniciais. No entanto, logo a trama cresce e fica realmente viciante. Basta o demônio Estrela da Manhã, “protetor” de Rafael, entrar em ação para a história se desenrolar e transcender o simples suspense. O demônio não é do tipo que move objetos e faz aparições súbitas em momentos inesperados, ele é traiçoeiro e vil, aprecia eventos sangrentos. Em outras palavras, a criação atípica de Vianco vai além de pregar sustos passageiros, ela chega a perturbar a mente do leitor.

 


INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES DA OBRA

Título: Estrela da Manhã

Autora: André Vianco

Editora: Giz Editorial (selo Calíope)

Páginas: 280

Ano: 2015

Sinopse: Rafael, um menino frágil e sensível, sofre a perseguição de um grupo de valentões na escola. Em casa, não encontra apoio da mãe relapsa nem do irmão mais velho. Perdido, tenta encontrar na internet, através da tela de seu smartphone, tutoriais de rituais para reencontrar seu pai morto. Ele acredita que somente algo vindo do além poderá ajudá-lo.

O menino é tão persistente que finalmente sua voz é ouvida do outro lado. No entanto, quem responde ao seu chamado não é o pai, mas uma entidade que promete protegê-lo de seus detratores durantes sete dias. Rafael só quer ser protegido, por isso entrega à entidade a lista com os nomes dos que o aborrecem. Só quando a primeira pessoa de sua lista morre ele descobre que seu pesadelo está apenas começando.

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Elielton Castro
About Elielton Castro 9 Articles
Natural de Belém do Pará, possui 21 anos, é apaixonado por histórias macabras, Edgar Allan Poe; é escritor resenhista nos tempos vagos e sofredor em tempo integral.

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