Resenha | O Demônio e a Srta. Prym, de Paulo Coelho

2000/SEXTANTE

Quanto custa a honestidade humana? A que ponto as pessoas são capazes de chegar para conseguirem o que ambicionam? Um assassinato deixa de ferir valores quando ocorre por um bem maior?

Em Viscos algumas boas barras de ouro parecem ser suficientes para haver, no mínimo, a cogitação de uma vítima. Afinal, o que é uma única vida perto de precisamente 280 outras que poderiam ser beneficiadas pelo assassinato?

Eis o pano de fundo de O Demônio e a Srta. Prym.

A história se inicia com um forasteiro — acompanhado por um demônio a alimentar suas amarguras do passado — que escolhe a dedo o vilarejo esquecido no tempo para realizar uma proposta indecorosa: proporcionar riqueza aos habitantes locais mediante ao assassinato de um deles, seja quem for.

O homem acredita que a nossa espécie, a humana, se tiver oportunidade, está apta a fazer o mal, pois o mal se encontraria incrustado na nossa natureza. Então decide pôr em prática um jogo ousado na busca da comprovação de tal pensamento, atiçando a ganância dos habitantes de Viscos ao propor a salvação do lugar — com o dinheiro ofertado, ninguém precisaria se preocupar mais com os problemas daquele fim de mundo —, exigindo em troca nada além de um cadáver. Uma vida por muitas vidas. Nada seria denunciado ou reproduzido fora dali. O que acontecesse em Viscos ficaria em Viscos.

Dos habitantes, o homem só deseja a ação. E se as pessoas cederem ele saberá que sempre teve razão.

A proposta é, obviamente, tentadora.

“Meu prazo é de uma semana. Se no final de sete dias, alguém na aldeia aparecer morto — pode ser um velho que já não produz mais, um doente incurável, ou um deficiente mental que só dá trabalho, tanto faz a vítima — este dinheiro será de seus habitantes, e eu concluirei que nós todos somos maus.”

Chantal Prym, uma jovem bastante sagaz e cansada de viver isolada no vilarejo, é a primeira a ter conhecimento dos planos do forasteiro. Ela termina envolvida mais do que gostaria no jogo psicológico do homem e entra em conflito consigo própria. Há um “anjo” e um “demônio” a disputá-la e o resultado dessa batalha pode desencadear efeitos irreparáveis.

“[…] não é a vontade de seguir as leis que faz com que todos se comportem como manda a sociedade, e sim o medo do castigo.”

A obra tem um enredo conciso, semelhante a um conto. Também não possui uma grande variedade de personagens a serem explorados, tanto que poucos são propriamente nomeados. A maioria é tratado somente como “o prefeito”, “o padre”, “a dona do hotel”, entre outros; alguns chegam a ganhar relevância maior no decorrer da trama, porém, em momentos isolados. Outra característica relevante é o aspecto anti-heroína de Chantal e de Berta — uma velha solitária que é a própria personificação do sarcasmo —, além dos conflitos internos do forasteiro.

O texto em si é bastante reflexivo, incluindo os longos diálogos. A questão sobre o Bem e o Mal e sua influência na humanidade desponta da primeira à última página, e até nos traz algumas indagações pertinentes. Mas a narrativa só não se torna monótona devido ao suspense a respeito da decisão dos habitantes de Viscos a movimentá-la.

O livro é sempre recomendável, acima de tudo porque há atualmente certa resistência de alguns leitores em relação aos trabalhos de Paulo Coelho. Para quem não o aprecia, a obra trará um novo horizonte, uma nova perspectiva sobre o autor. Para quem simpatiza, leia. Apenas leia.


INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES SOBRE A OBRA

Título: O Demônio e a Srta. Prym

Autor: Paulo Coelho

Editora: Objetiva

Páginas: 213

Ano: 2000

Sinopse: Uma cidade dividida pela cobiça, a covardia e o medo. Um homem perseguido pelo fantasma de um passado sombrio. Uma jovem em busca da felicidade. São apenas sete dias, decisivos para que anjos e demônios lutem por aliados. Nesta longa e única semana, cada personagem fará seu pacto — Bem ou Mal?

Facebook Comments
Elielton Castro
About Elielton Castro 9 Articles
Natural de Belém do Pará, possui 21 anos, é apaixonado por histórias macabras, Edgar Allan Poe; é escritor resenhista nos tempos vagos e sofredor em tempo integral.