Resenha | Todos Contra Todos, de Leandro Karnal

Leandro Karnal derruba o mito do brasileiro pacífico, mostrando de forma irônica o quanto transferimos para o outro o que temos de ruim.

As “pessoas de bem” são capazes de matar, agredir e cercear em nome da virtude. O mal com fins e metas virtuosas talvez seja o pior de todos, porque é mais difícil de combater – diz Karnal.

Nos últimos anos a sociedade brasileira tem se interessado e consumido, cada vez mais, conteúdos relativos a alguns tipos de áreas do pensamento humano que antes estavam restritas, quase que exclusivamente, ao meio universitário. Debates e aulas de filósofos, professores universitários e intelectuais sobre moral e ética, religião,o sentido da vida, as grandes questões da filosofia, assuntos relacionados às ciências humanas, sociais e políticas têm sido gravados de dentro do ambiente acadêmico ou corporativo e publicados nas mídias sociais, especialmente no YouTube, ampliando sobremaneira a exposição e publicidade desse conteúdo, provocando assim a curiosidade de milhares e milhares de pessoas. Dessa exposição inicial, com a popularização das ideias provenientes desses intelectuais, nascem os subprodutos deste fenômeno, como palestras, entrevistas, livros (dos quais um deles iremos tratar adiante), etc.

Um dos motivos para tal fenômeno é, certamente, o advento da Internet. Antes dela, este tipo de reflexão estava confinado nas bibliotecas, salas de aula e seminários das universidades; em breves e esporádicas entrevistas para algum jornal; programas de rádio ou TV; ou palestras de dentro do mundo corporativo. Agora, este material está acessível a qualquer pessoa conectada, 24 horas por dia, para ser visto e revisto infinitas vezes.

Outro fator – não menos relevante – é o aumento quase que exponencial da complexidade e ineditismo de determinadas situações pelas quais a sociedade brasileira tem passado nos últimos anos: divulgação e judicialização dos casos de corrupção; prisão de políticos e empresários; crescente destaque na mídia para as minorias sociais, como a comunidade LGBT, por exemplo; crescimento da onda conservadora; crises econômicas e políticas persistentes, entre outros inúmeros casos. Toda essa avalanche de acontecimentos tem produzido uma percepção entre as pessoas de que algo precisa ser feito, seja principalmente para mudar ou, em menor grau, manter o status quo; que um novo modelo de sociedade precisa ser construído, enfim, que o Brasil precisa ser passado a limpo, seja administrativamente, seja na construção de novas bases éticas, ou seja, no modo de convívio e relacionamento entre as pessoas – de forma privada – e entre estas e o patrimônio público, mais precisamente no uso da coisa pública.

Esse cenário tem feito com que a sociedade, em especial as camadas mais escolarizadas, busque respostas para uma infinidade de perguntas: o que mudar? por onde começar? o que funciona ou não funciona? o que já foi tentado em outras sociedades que enfrentaram esse mesmo tipo de problemas? Os intelectuais que possuem uma linha de raciocínio e clareza de ideia mais acessíveis para o grande público para responder à essas questões acabam se destacando e tornando-se os preferidos.

Quando a disponibilidade deste se dá também para as mídias sociais, a cooptação de simpatizantes se torna inevitável. Este último fator, em especial, fez com que o autor do livro objeto de nossa resenha, Leandro Karnal, tenha se tornado um dos pensadores mais requisitados da atualidade para entrevistas, palestras e produção de conteúdo para jornais e televisão. Sua frequente participação no Facebook – com postagens e respondendo a comentários – tem lhe rendido um crescimento acentuado no número de seguidores. Na atualidade destacam-se também: Mário Sérgio Cortella, Clóvis de Barros Filho e Luiz Felipe Pondé.

O principal objetivo do livro é desmitificar a crença popular de que o povo brasileiro é “cordial”, segundo definição do renomado sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, aliás definição esta que o autor sustenta ter sido mal e tendenciosamente interpretada ao longo da história. Seguindo essa premissa, o autor vai se opondo a várias afirmações do senso-comum nacional, além da suposta cordialidade, como: o Brasil nunca teve guerra civil, logo somos um povo pacífico; o brasileiro não é racista, pois convivemos com diversas raças e etnias; o brasileiro é tolerante com a diversidade; o problema do Brasil foi ter sido colônia de exploração e ter recebido apenas os piores tipos da sociedade portuguesa; entre outras.

A internet não criou os idiotas, mas o ataque anônimo nas redes deu ao ódio do covarde uma energia muito grande. Deu-lhe a proteção da distância física e do anonimato.

Usando predominantemente uma linguagem acessível, com clareza de raciocínio, frases de efeito, além do já conhecido bom humor e tom frequentemente sarcástico, Leandro consegue demonstrar que, na verdade, o povo brasileiro é muito mais violento do que muitos possam imaginar:

Nossas guerras civis ganharam outros nomes para diminuí-las ou dissimulá-las; nosso país ainda carrega consigo o racismo que não permite que, nos dias de hoje, tenhamos igualdade de condições entre brancos e negros, em diversas esferas; nosso povo é violento no trânsito e nas redes sociais; os homicídios no Brasil superam enormemente o número de mortes das principais guerras contemporâneas; somos um povo individualista e egoísta; não somos tão éticos como pensamos ou gostaríamos de parecer.

O quando pintado é idílico. Somos uma terra sem terremotos e furacões. Sem guerras civis nem fundamentalismos extremados que levam a genocídios. Somos pacíficos. Não violentos. Não somos agressivos. Não odiamos. Não somos preconceituosos. Não somos racistas. Esse quadro não resiste ao teste da história.

O texto em alguns capítulos apresenta, a meu ver, excessivas repetições de ideias além de problemas com a revisão: alguns parágrafos ficaram mal construídos e com difícil entendimento. Outro ponto que merece nota: muitas explicações sobre as atitudes das pessoas reforçam o caráter psicológico da ação em detrimento de outros fatores. Explico: as pessoas agem, segundo Karnal, e mais frequentemente do que pensamos, motivadas principalmente pelo ódio, pela inveja, pelo ressentimento, pela frustação. Esse modo de analisar o comportamento muitas vezes retira do debate outros fatores que também determinam nossa ação, como os fatores históricos e sociais. Em alguns tópicos confesso que fiquei com a impressão de que a reflexão poderia ter sido mais aprofundada, ter trazido mais dados e “vozes” para a discussão.

Para terminar, o livro é excelente para servir de ponto de partida para uma reflexão mais estruturada e embasada sobre os problemas da sociedade brasileira, nos colocando diante do espelho para enxergarmos o que verdadeiramente somos e, a partir daí, agirmos para enfrentarmos os problemas em sua causa raiz.

É manchete de jornal a violência que atinge grupos de elite, mas nunca aquela que atinge grupos sociais específicos, como negros, pobres, homossexuais e transexuais.

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Felipe Cao
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Aos 31 anos, natural de Jundiaí - São Paulo, é Engenheiro com pós-graduação em Administração de Empresas, dedicando seu tempo livre à família, à música e à revista. Músico e leitor assíduo, procura sempre renovar e ampliar a sua biblioteca particular.

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